O arranca-rabo no PDT e uma expressiva ausência no encontro do partido

O embate interno, com repercussões externas, que gerou um tiroteio político como nunca se viu no grupo político controlado por Ciro e Cid


Na imagem, Evandro Leitão olha para Lupi. A expressão de um leve sorriso não correspondia ao incômodo com a fala do presidente d partido.

O PDT SABE FAZER?
Como nunca antes no âmbito do grupo político comandado por Ciro e Cid Gomes, a situação foi… digamos… tão complexa. O encontro denominado “O PDT sabe fazer”, realizado em Fortaleza na última quarta-feira, 15, deveria ter servido para arregimentar as forças do partido no Nordeste a favor de Ciro. No entanto, foi palco de um constrangedor embate relacionado à disputa política do Ceará.

CARIOQUÊS
Como um elefante em loja de cristais, o presidente nacional da sigla, Carlos Lupi, puxou a claque a favor da candidatura de Roberto Cláudio a governador do Ceará. “Alguém lembra da música? O melhor prefeito do Brasil vai virar governador. É a música, hein? É a música”, disse ao microfone reproduzindo sua torcida por Roberto Cláudio.

O presidente do PDT perguntou se a platéia lembrava da citada música. Deu-se o silêncio. Afinal, tratava-se do refrão de um jingle da campanha de Anthony Garotinho a governador do Rio de Janeiro, há mais de 20 anos.

TIROTEIO
A fala até que não seria um grande problema não fosse a descortesia com dois outros pré-candidatos do PDT que estavam na mesa dos trabalhos: o deputado federal Mauro Filho e o presidente da Assembleia, Evandro Leitão. Claro que a incoveniência também chocou a governadora Izolda Cela, outra pré-candidata, que chegou ao local logo depois.

Evandro Leitão não engoliu a seco. Retirou-se e protestou em nota: “Ele, como presidente nacional, deveria se comportar como magistrado nesse processo, respeitando os quatro pré-candidatos, nós parlamentares e lideranças, e não como militante em prol de uma candidatura… Esse comportamento inadequado não contribui em nada para o momento que estamos vivendo’’.

FALANDO POR MUITOS
Pronto. O comportamento de Lupi acabou por desencadear para a audiência do distinto público o que se dava no silêncio e comedimento dos bastidores: uma dura disputa política. Sim, dura. E do jeito que se apresenta, tende a deixar sequelas no quase sempre uníssono partido de Ciro no Ceará.

A nota de Evandro Leitão vai além da expressão pessoal do presidente da Assembleia. Chefe de um poder, o deputado foi um importante secretário dos governos de Cid Gomes, exerceu a liderança de Camilo Santana no Legislativo e, naturalmente, tem grande influência sobre a bancada aliada na Casa. Evidentemente, sua posição e sua fala não devem ser desprezadas. Tanto que vários parlamentares que compõem um grupo no WhatsApp consideraram “inoportuna” e “desrespeitosa” a atitude de Lupi.

Detalhe: as redes sociais de Evandro Leitão nem sequer mencionaram o evento do PDT ou mesmo a a sua participação no mesmo.

LABAREDAS
Mantendo a linha de confronto (a essa altura, era de se esperar uma postura conciliadora), Lupi não se conteve e deu uma resposta a Leitão em tom agressivo: “Inadequado e desrespeitoso é o deputado Evandro Leitão, que mesmo sendo do PDT, chegou ao encontro do partido atrasado, ficou cerca de meia hora e foi embora. Independente de ser o presidente nacional do PDT, vivemos em uma democracia e tenho direito de manifestar minha opinião”. Pois é! Mais lenha na fogueira.

Onde está Cid Gomes? O senador, proa do PDT no Ceará, não compareeu ao evento.

CADÊ O CID?
Tão ou mais importante que as presenças no encontro do PDT é uma só ausência. procurem Cid Gomes na imagem ao lado. Sim, o senador não foi ao evento. Ficou em Sobral. Alegou-se que o senador estava indisposto.

Três dias antes, na plenitude de sua saúde, Cid havia comemorado o batizado da filha, em sua casa na serra da Meruoca. Lá estava, lá ficou. Cid cumpre um recolhimento preventivo. Em política, costuma-se usar o termo “deu um mergulho”. “Ouvir e conversar” é seu lema quando perguntado acerca da escolha do nome pedetista.

Como escreveu o secretário Arialdo Pinho, que coordenou as duas campanhas de Cid para o Governo, “evento do PDT no Ceará com ausência da sua maior liderança estadual, Cid Gomes, tem algo grave acontecendo”.

UM OLHO NO PEIXE, OUTRO NO GATO
E o PT? Pois é! O partido de Camilo Santana, controlado majoritariamente pelo deputado federal José Nobre Guimarães, resolveu esticar a corda. Como se sabe, Camilo não esconde sua preferência pela candidatura da governadora Izolda Cela. Guimarães também. Até a coloca como condição para manter a aliança com o PDT no Ceará. Porém, o petista está indo bem mais longe.

Ao falar grosso, Guimarães passa o tom de imposição. Quem conhece os Gomes (e o petista conhece bem) sabe que impor é o mesmo que atiçar o rompimento. E é Ciro Gomes quem tem reagido às falas oriundas do PT. Ao ser perguntado acerca da possibilidade de o PT não apoiar a candidatura do PDT ao governo do Ceará, Ciro disse laconicamente o seguinte: “Que seja muito feliz”.

O que mais importa ao PT é a candidatura presidencial de Lula. O petismo está inebriado com a possibilidade de voltar ao Palácio do Planalto. De preferência, com uma vitória arrasadora de Lula no Ceará na disputa contra Ciro Gomes. É claro que ter uma candidatura própria ao Governo ajuda o palanque lulista e ainda deixa o candidato ao Governo com boas possibilidades. Daí um olho pró-Izolda e outro pelo rompimento.