Novo ciclo no BNB: fim do monopólio do Inec e venda de King Air

Objetivo é gerar a saudável concorrência na oferta do Crediamigo e sinalizar austeridade desfazendo-se da luxuosa aeronave que servia à presidência da instituição. Nem os gigantes BNDES, BC, BB ou CEF possuem jatos.


Anderson Possa, o novo presidente do Banco do Nordeste.

Por Fábio Campos
fabiocampos@focus.jor.br

Logo no primeiro dia como presidente do Banco do Nordeste, Anderson Possa tomou duas decisões de grande relevo. São ações cujo valor, além de simbolizarem o novo momento, colocam o BNB na linha que se espera de uma estatal financeira voltada para o desenvolvimento da região que ainda mantém os piores índices de pobreza do País.

A primeira medida foi a determinação para que o Banco do Nordeste inicie o processo de credenciamento de pessoas jurídicas para a operacionalização da plataforma de microfinança urbana, o Crediamigo. Ou seja, é o início da democratização e do estabelecimento de uma saudável  concorrência no serviço de oferta do mais importante fundo financeiro para pequenos empreendedores urbanos do Brasil.

Na prática, é o começo do fim de um dos mais inusitados e aparelhados formatos que, desde 2003, primeiro ano de Lula presidente, tem apenas uma ONG, o Inec como operador exclusivo. Portanto, há longos 18 anos a entidade recebia algo em torno de R$ 600 milhões anuais para realizar o serviço.

A segunda medida corrige uma excrescência: a venda de um jato King Air que servia à presidência do BNB. Importante lembrar que nem outras estatais da área de finanças com porte algumas vezes maior que o Banco do Nordeste, como o Banco do Brasil e a Caixa Econômica, têm jatos disponíveis para seus presidentes.

O caso do Crediamigo

A decisão do BNB de abrir a concorrência para empresas que fazem a mediação de empéstimos populares na área urbana (veja o print do Comunicado ao Mercado) é vista pelo mercado como uma necessidade premente.

Os avanços tecnológicos e a firme concorrência das ágeis fintechs, com os seus modelos desburocratizados e eficientes, corrói os espaços de atuação do Banco do Nordeste nessa área. O Crediamigo alcança milhões de microempreendedores que atuam em pequenas, médias e grandes cidade. Pipoqueiros, vendedores de lanches, ambulantes, costureiras etc.

O valor médio dos empréstimos é de R$ 2,7 mil, mas pode ser renovado e evoluir até R$ 21.000,00, de acordo com a estrutura do negócio e capacidade de pagamento do tomador. Em 2020, o BNB manteve 2,24 milhões de clientes do Crediamigo. O valor total aplicado naquele ano foi de R$ 9,52 bilhões, mas a carteira tem potencial para emprestar mais de R$ 12 bilhões ao ano.

Único credenciado há 18 anos, o Inec (Instituto Nordeste Cidadania) não tem do que reclamar. Afinal, detém as plenas condições de participar da concorrência assim como outras 117 instituições de todo o Brasil, grande parte com sede no Nordeste, com aval do Ministério da Economia para fazer esse  tipo de serviço.

É certo que a mão de obra que hoje é contratada somente pelo Inec (mais de 7 mil pessoas) deverá ser, naturalemnte, aproveitada pelas outras empresas que vão conseguir se credenciar no processo iniciado pelo BNB. Com a concorrência, tende a imperar a excelência nos serviços de oferta do microcrédito na ponta. As métricas de comparação assim impõem. Pelo visto, é um jogo em que todos ganham.

O caso do King Air

Na segunda medida após a posse, Anderson Possa determinou que fossem adotadas “as providências necessárias para alienação da aeronave de propriedade do Banco, respeitado todo o fluxo normativo, orientações internas e legislação vigente sobre o tema”.

O interior de um Kig Air similar à aeronave de propriedade do Banco do Nordeste.

O avião turboélice Beechcraft King Air B200GT tem capacidade para até 10 passageiros (a depender da configuração) e custa, quando novo, em média, cerca de R$ 35 milhões (quase 6 milhões de dólares). A aeronave de propriedade do BNB foi fabricada em 2008. Por ser um avião de grande qualidade, seu valor de mercado se mantém alto mesmo quando usado. No caso da aeronave executiva do BNB, o valor de mercado hoje gira em torno de 4 milhões de dólares. Em reais, aproximadamente 20 milhões.

A questão não fica apenas no preço do equipamento. Um avião de uso privadoato pressupõe manter uma equipe com piloto e co-piloto, hangar para estacionamento, combustível, manutenção constante e todo o aparato necessário. Certamente, os aviões de carreira estaão aí. Em caso de emergências, o mercado de aluguel de jatinhos está disponível.

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Fábio Campos

Jornalista graduado pela Universidade Federal do Ceará (UFC), foi repórter de política e articulista do O Povo, o mais tradicional veículo de jornalismo impresso do Ceará, onde editou a Coluna Política por 14 anos (1996-2010) e a Coluna Fábio Campos por sete anos (2010-2017). Também foi editorialista do mesmo veículo entre 2013 e 2017. Concomitantemente às funções no jornal, editou o Anuário do Ceará por 15 anos, modernizando o conteúdo e o projeto gráfico da prestigiada publicação. Apresentou o programa Jogo Político na TV O Povo por 12 anos, ancorou o programa Contraponto na TV Cidade (Record), foi comentarista de política na TV Jangadeiro (SBT) e na rádio O Povo/CBN. Em agosto de 2017 iniciou a startup Focus.jor.