Na reta final, a guerra nas redes sociais e o impacto para o resultado das urnas

O contra-ataque econômico da esquerda finalmente surte efeito e equilibra o debate político digital às vésperas do segundo turno, obrigando Bolsonaro a torcer pela janela temática do debate na TV Globo para reforçar a "guerra cultural" de última hora


Conteúdo PollsterGraph

De forma inédita neste ciclo eleitoral, a campanha de Lula chega às vésperas do segundo turno com leve vantagem sobre Jair Bolsonaro não apenas nas pesquisas, mas no espaço preferencial de disputa política do país na atualidade: as redes sociais. Inclusive, com avanços em plataformas em que o bolsonarismo há anos se mantém como protagonista absoluto, como o Facebook – que persiste muito mais abrangente para o cidadão brasileiro do que o restrito Twitter, apesar da perda de espaço para Instagram, Youtube e TikTok.

Após meses de acompanhamento regular do debate político nas redes sociais brasileiras, o Atlas Monitor, ferramenta de monitoramento da Atlas Intel, identificou na penúltima semana antes do segundo turno interessante “virada” de presença digital de Lula e apoiadores-chave, em especial André Janones, principal personagem do ganho de força do petismo no Facebook.

Por isso, pela primeira vez na campanha, a campanha lulista superou o bolsonarismo em espaço relativo no debate eleitoral como um todo: 21,2% de presença, contra 20,9% do presidente. Janones desponta como 3º maior influenciador político, com 9,9%, mas a base de correligionários do presidente continua muito forte e mais ampla que a do PT – Carla Zambelli, os filhos de Bolsonaro, Bia Kicis (que reúnem, somados, mais de 12% de espaço relativo).

Espaço relativo dos principais atores políticos do país na rede em Twitter e Facebook (17 a 23 de outubro)

O espaço relativo, uma das métricas utilizadas pelo Atlas Monitor para qualificar o monitoramento eleitoral de redes sociais, mensura a proporção de cada ator político no volume absoluto de debate – no caso, as mais de 43,8 milhões de interações sobre o assunto no Facebook e as 27,5 milhões de publicações no Twitter, entre 17 e 23 de outubro. Ou seja, inclui tanto comentários positivos quanto negativos e neutros sobre os candidatos, e Bolsonaro persiste com sentimento muito mais favorável (95%), enquanto Lula persiste com apenas 65% de interações positivas.

Ainda assim, ao superar o presidente, Lula apresenta notável expansão de presença na pauta, porque, até então, Bolsonaro e os principais “braços-direitos” sempre mantiveram expressiva folga de espaço relativo – não raro, com o dobro de participação no debate e os mesmos índices muito altos de sentimento positivo. Agora, o petista se impõe como protagonista digital, com forte aumento de conteúdos elogiosos (via Janones, inclusive) e a inevitável ampliação de ataques diretos de bolsonaristas.

Economia à esquerda, guerra cultural à direita

Como um todo, o Atlas Monitor identificou aumento muito expressivo de volume de conteúdos eleitorais na semana passada – no Facebook, houve alta de 51% no volume de interações em relação ao período anterior, enquanto no Twitter o aumento foi de 30%. É esperado que haja ampliação da atividade política com a proximidade do segundo turno – no entanto, surpreendeu a capacidade da base pró-Lula em retomar importância em agendas de pouca relevância na campanha até o momento, em especial no contexto econômico.

Principais tópicos do debate político em Twitter e Facebook
(17 a 23 de outubro)

Foi a primeira vez no ciclo eleitoral, por exemplo, em que o principal tópico do Facebook não foi criminalidadeeleiçõescultura/valores morais, ou corrupção, agendas em que a direita bolsonarista é muito mais forte do que a oposição à esquerda. Com 2,5 milhões de engajamentos, a pauta previdenciária ganha espaço central na disputa por votos na rede, a partir de discussões sobre o projeto do Ministério da Economia para supostamente remover a indexação do salário mínimo à inflação. Perfis de apoio a Lula responderam por 65% do engajamento sobre o assunto, impulsionando uma rara “posição defensiva” por parte do bolsonarismo.

Em paralelo, o desemprego também alçou espaço entre os principais protagonistas temáticos do debate. Somou quase 1 milhão de engajamentos, e o predomínio de perfis pró-Lula no assunto foi ainda mais substancial: 92%. Mesmo nos demais assuntos de maior volume na pauta eleitoral das redes, como corrupção e criminalidade, apesar de a direita pró-Bolsonaro permanecer com vantagem de presença, contas “lulistas” aumentaram presença recentemente – com 25% de atuação no debate sobre ambos os assuntos.

Participação de direita e esquerda nos temas do debate político
(17 a 23 de outubro)

Com isso, em posição inédita de se forçar a construir contra-narrativas para revidar ataques da esquerda tanto no Twitter quanto no Facebook, a base de Bolsonaro busca redobrar a aposta em “velhos conhecidos” para recuperar fôlego e reduzir a vantagem de Lula até domingo. Usa a pauta de segurança pública (que somou quase 2 milhões de engajamentos no Facebook) para destacar suposta associação entre Lula e facções do tráfico de drogas; mantém atenção à Amazônia e ao apoio de celebridades internacionais para defender a “soberania nacional” sobre a floresta; e persiste soberana ao atacar ministros do STF e do TSE – claro, com Alexandre de Moraes à frente – e replicar a discussão sobre “censura”.

O “vira-voto” digital de última hora (à direita)

A nova suspeita de irregularidades na divulgação da propaganda eleitoral no rádio é só mais uma jogada estratégica, por parte do bolsonarismo, para reconduzir o debate nas redes sociais para a esfera cultural/moral pouco antes da votação. No plano econômico, fica muito mais difícil para que a direita consiga exercer pressão e expandir o alcance da pauta de “medo” – que é muito eficaz para que o eleitor indeciso, predisposto a votar nulo ou se abster mude de ideia na última hora e apoie Bolsonaro na urna.

Se sob o enfoque em desemprego, indicadores econômicos, gasolina, poder de compra e contas públicas, apesar da melhora de resultados do país nos últimos meses, Bolsonaro e apoiadores perdem condições de “ditar os rumos da conversa” de forma irrestrita nas redes sociais, o mesmo não acontece com o apelo emocional. As bandeiras do nativismo, da religião, de gênero e a ênfase na dupla corrupção/segurança pública sempre puseram em Lula e no PT a necessidade de reação, patrocinadas pelo domínio significativo do bolsonarismo ao produzir volume de conteúdos e alcance multiplataforma. 

Em redes sociais, tudo é ocupação de espaços, inclusive para evitar que narrativas opostas sequer alcancem públicos “fora das bolhas” – é assim que a direita retém o controle da circulação de mensagens políticas no WhatsApp, por exemplo. Mesmo que as cobranças da campanha do presidente não surtam efeito quanto ao pedido de adiamento do segundo turno, ou que o TSE encerre por completo essa discussão, mais crucial é a reinserção do assunto e a propagação deste em larga escala em todas as redes sociais – para, portanto, recuperar parte do terreno em que o debate econômico conseguiu avançar além dos núcleos progressistas convencionais (e que são mais fortes no Twitter).

Principal postagem de Bolsonaro no Facebook em 26 de outubro

Parte da contra-narrativa impulsionada pelo bolsonarismo para rebater as críticas recentes de Lula passa, obrigatoriamente, pela defesa dos feitos econômicos do governo federal, sobretudo em reiteração aos comparativos habituais da “guerra cultural”, como a associação do PT com Argentina, Cuba e Venezuela. No entanto, com o duelo “pelo bolso”, dificilmente Bolsonaro consegue converter o eleitorado que ainda não se decidiu (e é percentualmente pequeno). Apenas por argumentos econômicos, também é difícil que obtenha sucesso ao estimular antipetistas e antibolsonaristas a votar no domingo, em vez de não participar das eleições.

Não é a primeira eleição, nem no Brasil e nem no exterior, em que candidatos conservadores têm performance bem melhor do que a antecipada por pesquisas de opinião – afora outros erros de metodologia de institutos tradicionais. Isso outra vez ocorreu no primeiro turno para Bolsonaro e para muitas candidaturas apoiadas pelo presidente, em especial no Senado, e a capilaridade da direita ao estabelecer uma “blitz” de campanha já aos 45 minutos do segundo tempo desempenha papel relevante para compreender por que o voto de direita é subestimado.

Na busca por indecisos, não engajados politicamente ou cidadãos propensos a se abster, via WhatsApp, Telegram, Youtube e Facebook o bolsonarismo amplia fortemente a quantidade de materiais voltados à batalha moral – de construção do “medo”. A esquerda não consegue fazer o mesmo, inclusive por limitações de retórica e quanto às pautas que prioriza. Ao “prender” o campo cognitivo da população com horas ininterruptas de conteúdo ideológico, consegue potencializar votos de último minuto.

Para isso, contudo, Bolsonaro precisa que a esfera pública não se mantenha dividida ou presa ao debate econômico. Precisa ditar as regras para ditar o alcance e o domínio da agenda de costumes junto à população no ambiente digital. Falta pouco tempo para fazê-lo, e o debate da TV Globo, nesta sexta-feira (28), representa a oportunidade final de que um novo “Padre Kelmon” surja na pauta e opere como combustível de comparecimento às urnas. Caso Bolsonaro consiga essa última cartada, a virada sobre Lula continua possível, embora difícil; caso não consiga, é muito provável que perca a eleição.

Fábio Campos

Jornalista graduado pela Universidade Federal do Ceará (UFC), foi repórter de política e articulista do O Povo, o mais tradicional veículo de jornalismo impresso do Ceará, onde editou a Coluna Política por 14 anos (1996-2010) e a Coluna Fábio Campos por sete anos (2010-2017). Também foi editorialista do mesmo veículo entre 2013 e 2017. Concomitantemente às funções no jornal, editou o Anuário do Ceará por 15 anos, modernizando o conteúdo e o projeto gráfico da prestigiada publicação. Apresentou o programa Jogo Político na TV O Povo por 12 anos, ancorou o programa Contraponto na TV Cidade (Record), foi comentarista de política na TV Jangadeiro (SBT) e na rádio O Povo/CBN. Em agosto de 2017 iniciou a startup Focus.jor.