Multilateralismo ou Bilateralismo: Qual é o nosso caminho?, por Igor Macedo de Lucena


Articulista do Focus, Igor Macedo de Lucena é economista e empresário. Professor do curso de Ciências Econômicas da UniFanor Wyden; Fellow Associate of the Chatham House – the Royal Institute of International Affairs  e Membre Associé du IFRI – Institut Français des Relations Internationales.

Desde a eleição do presidente Donald Trump o mundo passou a acompanhar uma nova vertente dentro das relações internacionais, principalmente no âmbito comercial. Acompanhamos ano após ano o retorno ao bilateralismo dentro do cenário internacional, onde as nações estão tratando com os Estados Unidos de uma maneira direta, em especial liderada pelos seus chefes de governo.

O governo Trump possui uma visão política de que os acordos multilaterais e os órgãos internacionais, nos quais vários Estados traçam conjuntamente regras e acordos, apresentam-se como uma ameaça aos Estados Unidos, seja diminuindo sua força política ou prejudicando seus interesses comerciais. Por isso órgãos como as Nações Unidas, a Organização Mundial do Comércio e o Fundo Monetário Internacional vem perdendo força no âmbito internacional.

Vale ressaltar que todas essas organizações foram criadas e idealizadas por americanos como Franklin Delano Roosevelt e Harry Dexter White com o objetivo de diminuir os conflitos armados no planeta e se transformarem em fóruns de resoluções de disputas em diversos âmbitos. Para os Estados Unidos essas instituições foram capazes de elevar seu soft power e criar um ambiente de influência capaz de alcançar todas as nações do planeta.

Ao renegar a importância dessas instituições os Estados Unidos diminuem seu soft power e ao mesmo tempo retornam para um cenário das relações internacionais em um estágio pré-Guerra Fria.

De maneira análoga a decisão do Reino Unido de deixar a União Europeia também é uma negação do multilateralismo e um retorno até mais radical a visão bilateral de relacionamento entre as nações.

É importante destacar que decisões políticas das administrações no poder ou por meio de um referêndum são legítimas, democráticas e acima de tudo devem ser respeitadas, independentemente de que suas consequências sejam positivas ou negativas para os Estados no longo prazo. O que gostaria de chamar a atenção é que o modelo do multilateralismo tem sua raiz no ocidente e que o Reino Unido e os Estados Unidos foram nos últimos 70 anos os seus maiores incentivadores.

Como em política, inclusive a internacional, não existe vácuo, a retração desses países no âmbito multilateral abriu espaço para a ascensão da China, que outrora era irrelevante dentro dessas instituições e até 1975 era uma nação fechada para o mundo, hoje ganha mais e mais espaço ampliando sua participação nas atuais instituições e criando as suas próprias como o New Development Bank e a Belt and Road Initiative.

Os chineses entenderam com os americanos ainda no século XX que para ampliar seu poder é necessário que suas estruturas económicas ou comerciais sejam desejadas por outros Estados, de modo que eles se tornem uma espécie de exemplo a ser seguido. Nesse contexto a China fez o inverso e abandonou o bilateralismo, focando-se ano a ano em ampliar o multilateralismo e avançar em zonas de livre comércio como a Regional Comprehensive Economic Partnership (RCEP), envolvendo 15 nações, e a Comprehensive Economic Partnership for East Asia (CEPEA), com 16 Estados membros.

Indiretamente ao ampliar suas ações multilaterais a China busca diminuir o protecionismo global e atrair para sua zona de influência não apenas nações da Eurásia, mas possui um projeto mais ambicioso para ampliar sua capacidade de interação com outros Estados em todo o planeta.

Dentro desse contexto e alinhado ao atual cenário político brasileiro, qual será nosso caminho? Nosso atual governo é bastante alinhado com os Estados Unidos e o Reino Unido, tanto do ponto de vista cultural como no espectro político, por outro lado as oportunidades se apresentam muito mais favoráveis economicamente para nações como a China e a União Europeia, que buscam ampliar os acordos com o Brasil em diversas áreas.

O atual governo tem em sua linha de pensamento de que o Brasil deve procurar relações comerciais com a maior quantidade de países, independentemente da ideologia, e isso é corretíssimo, é o pragmatismo em busca dos interesses nacionais, de nossas empresas, do emprego dos brasileiros e do nosso desenvolvimento.

A dúvida que devemos ter é qual o caminho que iremos seguir, pois se mostra cada vez mais claro que no universo das relações internacionais dois caminhos distintos serão seguidos pelas potências globais, e o Brasil como uma potência regional com um grau de importância cada vez maior, precisa decidir se irá adotar o bilateralismo ou o multilateralismo.