“Mas, o rádio não iria acabar?”, por Maurício Garcia


Maurício Garcia é sociólogo graduado pela FFLCH-USP, tem pós-graduação pela Fundação Escola de Sociologia de São Paulo (onde já lecionou) e pela ECA-USP (em marketing). Trabalhou mais de 20 anos no IBOPE, maior instituto de pesquisa da América Latina e como pesquisador é associado à Wapor (World Association for Public Opinion), tendo participado de diversos congressos da entidade pelo mundo. Também como pesquisador, foi vencedor do Prêmio Alfredo Carmo, oferecido pela ABEP (Associação Brasileira das Empresas de Pesquisa), como melhor trabalho no 7º congresso da entidade com o estudo “A eleição para deputados em 2014 – Uma nova Câmara, um novo país”. Garcia é o mais novo articulista Focus.

É inegável o avanço tecnológico do mundo moderno, principalmente, em relação às mídias e aos veículos de comunicação. A primeira transmissão televisiva do mundo foi das Olimpíadas de 1936, em Berlim, quando os alemães queriam mostrar ao mundo sua superioridade racial antes de darem início à Segunda Guerra Mundial. A superioridade alemã não ficou muito evidente, mas depois do evento havia uma outra grande certeza: o rádio, maior veículo de comunicação da época, estava condenado à morte nos próximos anos.

Porém, há poucos dias (depois de mais de 80 anos da Olimpíada de Berlim), a Federação Internacional da Indústria Fonográfica, a IFPI, divulgou seu estudo batizado de Music Listening, que analisa o comportamento das pessoas com a música e suas diversas mídias. A pesquisa ouviu cerca de 34 mil pessoas, com idades entre 16 e 64 anos, de 21 países, como Estados Unidos, Japão, Reino Unido, França, Canadá e até o Brasil – a lista representa 92% da receita global de música gravada registrada em 2018.

Dentre uma série de análises interessantes, o estudo mostra algo absolutamente surpreendente: o rádio ainda é a forma mais popular de ouvir música, escolhida por 29% dos entrevistados. Já os moderninhos smartphones estão praticamente empatados, mas ainda aparecem na segunda colocação, com 27%. A pesquisa ainda mostra que a grande maioria das pessoas que ouve música, faz isso enquanto está dirigindo (70%). Outras preferem fazê-lo enquanto estão relaxando (64%) e cozinhando ou limpando a casa (51%).

Enquanto a grande surpresa do relatório é a vitalidade do rádio (mais vivo do que nunca, quando muitos já queriam enterrá-lo ainda no século passado) a grande novidade que chama a atenção é a relação das pessoas com a tecnologia mais avançada do momento: o streaming. Ele segue bastante popular (64% das pessoas ouvidas pela pesquisa afirmam ter usado algum serviço de streaming de áudio no último mês, enquanto 89% usaram serviços on demand em geral – tanto pagos quanto gratuitos). Em relação aos que usam exclusivamente a internet para ouvir música, 47% deles escolhem o YouTube, enquanto 37% optam por serviços de streaming pagos – como Spotify Premium – e 16% se mantém nos streamings gratuitos mesmo.

Como era de se esperar, quando o consumo de música em plataformas de streaming começou a se popularizar, os mais jovens foram os primeiros a adotar o hábito. Agora, que a onda já está consolidada entre nós, chegou a vez dos adultos, mais especificamente a parcela entre 35 a 64 anos, migrarem para o streaming. No ano passado, 46% das pessoas dessa faixa etária usavam serviços de streaming para ouvir música. Já em 2019, o número aumentou para 54%.

A grande conclusão dessa pesquisa é que, de forma geral, todo mundo está ouvindo mais música, independente da plataforma escolhida, seja YouTube, streaming ou rádio mesmo. Neste ano, as pessoas têm ouvido cerca de 2,6 horas de música por dia, o que resulta em 18 horas semanais. Em 2018, o número era pouca coisa menor: 17,8 horas semanais. E, ao todo, 54% se declaram fanáticos por música.

Mas temos que nos lembrar que rádio não é só música, também é notícia, informação instantânea. É aí que a rádio é o veículo que mais se parece com a internet, por isso da sua longevidade, por isso que apesar de “velhinho”, tá com esse “corpinho enxuto” e mostrando vitalidade pra dar e vender.

Ainda bem que temos pesquisas, e que elas atestam o quanto essa mídia ainda tem muita lenha pra queimar.