Laranjas que não eram laranja. Por Arlene Holanda

Talvez eu teime eternamente que minhas laranjas verdes também são laranjas. E que as coisas, muitas vezes, não são exatamente o que parecem.


As coisas nem sempre são o que parecem? Ou são exatamente aquilo que parecem ser e não queremos ver? Acreditar na primeira hipótese deixa uma possibilidade para a dúvida. Pode não ser tão ruim como parece…

Eu descobri que laranjas podiam não ser laranja desde cedo. Desde quando me entendi por gente, como minha mãe costumava dizer. (essa frase resume de forma tão singela e bonita o sentido sobre tomar consciência do mundo que nos cerca).

No nosso quintal (nosso é uma maneira de dizer, pois morávamos de favor numa casa de minha avó) havia uma grande laranjeira cujas laranjas mesmo quando maduras eram verdes. Eram chamadas de laranja-russas, e, segundo minha mãe, eram produzidas mesmo em Limoeiro, mas como eram exportadas na vizinha cidade de Russas, receberam injustamente esse crédito. Ao redor dessa laranjeira ficava um barreiro disposto em círculo, alimentado pelas águas de um cata-vento movido pelo generoso “vento geral’, que soprava no meio da tarde trazendo lembranças do mar para o sertão.

Cresci, mudei de minha cidade do interior para a capital, e um belo dia conheci laranjas que eram mesmo da cor laranja. Nesse caso as coisas eram exatamente como pareciam ser. Pegando nessas laranjas tão bem-dispostas num tabuleiro de supermercado me veio uma revelação: laranjas são mesmo laranja e as laranjas de cor verde na verdade são laranjas-da-terra, laranjas-russas, laranja-lima ou qualquer outra palavra escolhida para nomear as laranjas que não são da cor laranja.

E se as “minhas” laranjas definitivamente não são laranja, as coisas mudam de figura. Os nãos recebidos talvez fossem mesmo nãos. Não eram um talvez velado, timidez, não era falta de coragem de dizer sim.

Eram mesmo não. É preciso aprender que laranjas são da cor laranja. E as coisas, na grande maioria das vezes, são exatamente o que parecem. Mas talvez eu teime eternamente que minhas laranjas verdes também são laranjas.

E que as coisas, muitas vezes, não são exatamente o que parecem.

Arlene Holanda é escritora e artista plástica.