Gripe, gripezinha, gripezona, por Boghos Boyadjian

Considerações de uma carta mediúnica para minha avó, falecida nos idos de 1948 e sobrevivente de uma pandemia conhecida como gripe espanhola


Boghos Boyadjian é médico formado pela UFC e dirige um dos maiores complexos laboratoriais e clínicos do Ceará.
Um velho Timbira, coberto de glória,
Guardou a memória    
Do moço guerreiro, do velho Tupi!
E à noite, nas tabas, se alguém Duvidava
Do que ele contava,
Dizia prudente: “Meninos, eu vi !”
Gonçalves Dias

Querida vovó,

Hoje, 16 de maio de 2020, no intercurso de uma pandemia terrena cunhada como gripe chinesa (continuamos atribuindo uma nacionalidade às pandemias), nossos governantes procuram derrubar preceitos milenares que recebi da senhora:

  1. Água salina, ou seja, banho de mar, que a senhora nos aconselhava para curar gripe, hoje está proibida. Prova disso é a orientação dos médicos para lavarmos as narinas com soro fisiológico, a qual sabidamente é uma medida salutar para prevenir gripe.
  2. Ambientes arejados e ensolarados (parques, praças, etc) estão desertos por nos obrigarem a ficar em casa trancafiados. A senhora nos ensinava que o exercício ao ar livre e exposição ao sol eram benéficos.
  3. Continuamos nos alimentando por via oral, usufruindo do nosso paladar e aroma. Aprendi com a senhora que, se estivermos bem alimentados com frutas, vegetais e proteínas, estaríamos mais protegidos contra as doenças. Para minha desgraça (pois sou um bom glutão), a ciência nos oferece alimentos enlatados e armazenados por meses, como um prelúdio para a criação de comprimidos que vão substituir a necessidade de ingerirmos alimentos frescos (previsão descrita por Aldous Huxley no livro Admirável Mundo Novo). Ah, que saudade do vovô, que cultivava nosso pomar no quintal da casa e meses antes do Natal comprava um peru para engordar e matar na véspera da ceia natalina.
  4. Para incrementar o ciclo maléfico, obrigam-nos a circular em supermercados fechados e mantidos com refrigeração (eles chamam de ar condicionado), sujeitando-nos a inspirar o ar de outros humanos eventualmente contaminados mesmo que estejam a centenas de metros de distância. Após exaustivas pesquisas, verifiquei que esses grandes ambientes são refrigerados por uma central de ar que resfria, mas não renova o ar. Já as feiras realizadas ao ar livre em bairros foram condenadas pelos governantes sob o pretexto de aglomeração de pessoas. Neste sentido, seria muito mais simples pedir que os feirantes espaçassem suas bancas de atendimento. Seus clientes são moradores das imediações, vão para a feira a pé, evitariam respirar o malfadado ar condicionado e ainda teriam acesso a alimentos frescos, saudáveis e mais baratos. Tais feirantes são pessoas humildes, que exercem um trabalho respeitado e importantíssimo para a comunidade. Ah, que saudades da minha infância, quando a senhora me convocava para acompanhá-la na feira do nosso bairro e me permitia comer um delicioso pastel.
  5. Se a senhora embarcasse hoje em um cruzeiro marítimo, alguns com 3 mil passageiros ou mais, bastaria que um só tripulante estivesse acometido de virose para a central de ar se encarregar de difundir o vírus por todas as cabines do navio e, assim, contagiar todos os passageiros (felizmente alguns humanos têm imunidade própria e conseguem driblar o vírus).
  6. Hoje, vovó, viajamos em aviões com 200 a 300 passageiros que sobem até a estratosfera e naturalmente também têm ar pressurizado, ou seja, não renovável. Um indivíduo sentado no primeiro assento exala o mesmo ar do passageiro portador de virose que está sentado na cauda do avião, a cerca de 50 metros de distância do primeiro. Daí os nossos aeroportos serem a maior central de difusão das viroses (inclusive a gripezona).
  7. Se adoecermos, iremos a grandes nosocômios, que podem ter centenas de leitos, na sua maior parte refrigerados por uma central de ar, que se encarrega de disseminar as viroses por todos os ambientes. Felizmente, alguns poucos hospitais fogem a esta regra, ou seja, possuem ar renovável;
  8. Como estamos reclusos, escolares continuam a ter aulas nas suas residências através de um recurso chamado internet e pagam uma mensalidade reduzida por lei. O mesmo recurso está sendo utilizado por planos de saúde, que fazem consultas online sem reduzir o valor da mensalidade destes. Acredite vovó, aquele seu médico que ao pegar sua mão, sentir sua pulsação e apalpar o seu abdômen já lhe deixava mais perto da cura, está fadado a desaparecer. Um nobre colega médico já antevia esta realidade em seu livro “Medicina – a última profissão romântica” (Dr. Martinho Rodrigues). Querem nos transformar em um número rentável.
  9. Alguns governantes chegaram a limitar a circulação de carros, na sua maioria ocupados por 2 pessoas, priorizando o uso de transportes coletivos superlotados, onde um único indivíduo pode contaminar vários outros passageiros.
  10. Pasme vovó, não podemos nos insurgir contra as determinações de nossas autoridades, sob pena de sermos multados e presos. O que diria um famoso escritor seu contemporâneo George Orwell se pudesse conviver conosco nos dias atuais? Certamente acrescentaria mais uma obra prima literária aos seus já conhecidos “1984” e “A revolução dos bichos”.

Vovó, ainda hoje quando adoeço me vem à memória suas recomendações e seu conselhos benfazejos. Como era confortante senti-la zelando meu sono. Quanta nostalgia.

De seu dileto neto,

Boghos Boyadjian
Médico formado pela UFC