Folhetim de Santa Ozita – A curandeira que desafiou o governo do Ceará. Capítulo 2/7. Por Angela Barros Leal


Onde Ozita se encaminha para Fortaleza

Os poderes da curandeira Ozita eram de fazer inveja à própria mãe, Madame Jael. Que aliás, em uma das tantas entrevistas concedidas à época, assinalara a um jornalista ser pouco importante o paciente ter ou não ter fé no poder curativo de mãe e filha. A cura só não se daria se a pessoa “tivesse vindo ao mundo para pagar erros do passado”, e se não fosse obedecido o preceito fundamental da publicação de anúncio em jornal.

Declarações desse tipo, e o fato de notícias sobre as duas terem alcançado a Capital Federal, transformadas “na maior sensação na vida pernambucana, senão de todo o Nordeste”, protagonistas do “rumoroso caso de pessoas portadoras de forças sobrenaturais”, nas palavras do jornal carioca A Noite, incomodaram o poder terreno no Recife com a mesma intensidade com a qual incomodariam em todos os demais estados brasileiros para onde Jael, Ozita e a vaidosa Ariete levassem seus milagres.

O sucesso de Madame provocaria reação similar por parte dos órgãos de um Governo que não permitiria ao Recife se transformar em “uma nova Juazeiro”. Enquanto a cavalaria recebia ordens para dispersar a multidão diante da casinha simples, de porta e janela, arquivos antigos eram revirados até que se encontrasse a ficha do Serviço de Higiene Mental registrando o nome da senhora Jael de Carvalho Paiva.

Por não ter pago impostos e multas desde 1939, quando colocara a placa de cartomante sem o devido registro, desobedecendo as normas, a Fazenda pública abriu contra ela uma ação executiva fiscal. Aparentemente, a dor no bolso valeu tanto quanto as patas dos cavalos, e em 1947 o trio arrumou as malas e partiu para a “prática da caridade” em novas paragens.

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Ozita desembarcaria em Fortaleza em maio de 1949, procedente de Maceió, onde ela, a irmã e a mãe haviam atuado por oito meses; de Campina Grande, com permanência de quatro meses, de onde se dizia ter ela sido expulsa; e de Natal, onde em curtos três meses enfrentara dissabores de toda espécie.

Desde janeiro daquele ano, quando começara a distribuir panfletos na capital potiguar divulgando seus serviços (“AVISO: Ozita, filha de Madame Jael, de passagem por esta cidade, abrirá suas portas da Caridade para curar cegos, paralíticos, aleijados, doenças incuráveis etc.”), a vigilância oficial se fizera intensa, embora se dissesse católica fervorosa, não espírita, nem ocultista, muito menos vegetariana. Não entrava em transe e não se julgava rodeada de guias invisíveis. Apenas confiava em seu poder curativo.

Seguiram sua trilha os milhares de fiéis, amontoados diante do armazém onde ela morava e atendia sua “clientela”, exibindo à luz do dia a imensa miséria existente no estado, mulheres com criancinhas ao colo suplicando por uma esmola, meninos maltrapilhos, as feridas e aleijões da mendicância espalhando-se pelas ruas, praças e avenidas, “dando a nossa cidade um aspecto mais triste e desolador” (A Ordem, RN).

Dois acontecimentos rumorosos findaram apressando a saída de Ozita de Natal, rumo a Fortaleza. O primeiro foi um estranho furto no dito armazém. De acordo com os vizinhos, três homens saltaram o muro traseiro, em uma noite de março na qual Ozita estava ausente, fugindo pelo mesmo local.

Ao chegar, e avaliar o prejuízo ela precisou informar a Polícia que nada havia sido levado – e outra não poderia ser a resposta de quem vivia na pobreza e curava gratuitamente… Apenas a urna onde os enfermos depositavam os óbulos é que guardara marcas de violência. Nos riscos grosseiros, feitos à ponta de faca, haveria uma ameaça, talvez, de danos maiores.

O segundo acontecimento se tratou de processo de injúria aberto por ela também em Natal, no mês seguinte, contestando “declarações comprometedoras” de um “cliente” insatisfeito, talvez um namorado, como sugeriam os autos. O processo foi encerrado com um termo de retratação e desistência, por parte dela, alegando carência de recursos para pagar advogado – apesar de haver adquirido passagem aérea até Recife para o dito “cliente”, como descobriu o jornal A Ordem, empenhado em abalar a imagem da curandeira.

Por essas e outras chegara a hora de Ozita arrumar seus pertences, voar para outro lugar onde não fosse ainda conhecida e reiniciar os milagres que haviam dado a ela o cognome de Santa Ozita. Seus dons divinatórios, por maiores que fossem, não previram que se depararia no Ceará com um forte antagonista: o jornalista Luciano Carneiro.

(Continua)

Angela Barros Leal é jornalista e escritora.