Filosofia e Liberdade

por Catarina Rochamonte
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Tabata Amaral, reforma da Previdência e ameaça de expulsão


Não tenho afinidades político-ideológicas com a deputada Tabata Amaral, do PDT/SP. Ela se declara “progressista” e adota um discurso neutro ou politicamente correto do qual eu corro léguas. Confesso que tive vontade de ecoar a zombaria das redes sociais que deram conta de que “a Tabata Amaral é uma redação do ENEM encarnada. Prestem atenção no jeito que ela fala: ´não sei o que lá cidadania, isso aqui igualdade, aquilo ali direitos humanos e pipipipopopo é necessária a participação do estado e das instituições´”. Ou seja, é um tipo novo de político moldado, homogeneizado e pasteurizado pela formação em cursos de fundações como o RenovaBR e o Acredito, mantidos por bilionários bem intencionados como JP Lemann e Luciano Huck.

Fazer essa ressalva para tornar claras as divergências não me impede, porém, de reconhecer na jovem Tabata o espectro civilizado, moderado, moderno e racional da esquerda brasileira. É a esquerda com a qual se dialoga, com a qual se pode tomar um café e conversar. Diferentemente do perfil do coronel do seu partido, o truculento Ciro Gomes que, dentre outras fanfarronices, xingou o vereador Fernando Holliday de “capitão do mato nazista” e, mais recentemente, o ministro Sergio Moro de “canalha” e o general Augusto Heleno de “um merda” e “babaca.”.

Pois bem, é com esse senhor de difícil trato e com outras figuras caricatas do PDT que Tabata terá que se haver se mantiver sua posição já declarada de que vota a favor da reforma da Previdência. No embate intrapartidário, a deputada entra em confronto com o presidente Carlos Lupi e com Ciro Gomes. Estes ameaçam expulsá-la do partido se ela não se submeter. E tudo indica que não vai.

Deve-se salientar que Tabata não aceitou a proposta de reforma tal como apresentada pelo governo, mas atacou duramente pontos, a seu ver, negativos, alguns deles já eliminados do projeto que vai à votação esta semana no Plenário da Câmara. Ao final, porém, ela mostrou senso de responsabilidade com o país ao confrontar a demagogia e oportunismo dos chefes do seu partido, questionando de modo meio ingênuo e genuíno, como ela mesma parece ser:

“Eu não consigo entender. Quem é progressista, quem tem a luta social como algo do sangue mesmo, como que essas pessoas não se posicionam contra a desigualdade que é perpetuada pela Previdência?”.

Dada a recém conquistada notoriedade da jovem Tabata, não será nada cômodo o processo de sua expulsão; mesmo porque parece que um número expressivo de deputados pedetista a acompanharão no voto rebelde. Talvez Lupi possa contemporizar, pois a jovem deputada é uma estrela em ascensão que o partido não quer perder. De Ciro Gomes, no entanto, não se sabe o que esperar.

A esquerda comemorou ruidosamente a performance de Tabata Amaral no confronto com o ex-ministro da Educação, Vélez Rodríguez. Como essa esquerda é, na sua quase totalidade, fanaticamente inimiga da reforma da previdência, vai ter de, neste tópico, confrontar a jovem; e me parece que, ao fim, não terá muito o que comemorar.

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