Filosofia e Liberdade

por Catarina Rochamonte
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Política e arte: Secretário da Cultura do município de Eusébio é exonerado


Aqui no Ceará também teve Secretário de Cultura exonerado. O motivo da demissão do titular da pasta do município de Eusébio foi o apoio da Secretaria à realização da vigésima convenção brasileira de malabarismo e circo, na qual estava incluso o espetáculo “Erotic Circus Show”. O ator do espetáculo, Felipe Paes acusou os “conservadores” de não saberem diferenciar arte-erotismo de pornografia; outro membro do grupo, Marcio Sá disse que a exoneração do secretário “invalida os benefícios levados pela convenção de circo para o município, surfando nessa onda conservadora e de imposição religiosa”; outro artista do espetáculo, Maurício Rodrigues disse ainda que “muito dessa polêmica acontece pelo fato de o circo ainda ser um território machista e destinado exclusivamente ao público hétero“.

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A cultura é um espaço de criação, além de hábitos tradicionais que se mantêm ao longo do percurso de uma sociedade ou de uma civilização. Não é fácil definir, delimitar o que é cultura porque a cultura se estabelece sob o critério do tempo, mediante a força da sua própria permanência, dos seus frutos, que podem ser tanto transgressores quanto edificantes. Ocorre que a transgressão ou a edificação dá-se pelo ímpeto criador do artista e não pelo fomento financeiro de grupos políticos vinculados a determinadas ideologias, sejam elas de viés conservador ou progressista. Não compete ao Estado alinhar códigos de fomento ou censura segundo seus critérios ideológicos, mas são necessários critérios mínimos de restrição justamente para que o dinheiro público não seja usado por ideólogos para impor, por meio da cultura, a sua visão de mundo.

Se a bela arte ou a arte sacra não pode ser imposta porque arte nada tem a ver com imposição, tampouco o poderá ser essa suposta arte que enaltece o grotesco e a permissividade sexual, que é transgressora no mal sentido e aliciadora de consciências imaturas. Embora não caiba ao Estado censurar a arte contemporânea que, por vezes, beira a animalidade, ele também não está obrigado a fomentá-la. Tal obrigação só existe nas cabeças autoritárias que querem a todo custo impor a sua visão progressista, amoral e permissiva no mundo das artes como se, por não poder ser definida, a arte pudesse ser qualquer coisa e, podendo ser qualquer coisa, devesse perder a nobreza e elevação que lhe caracteriza para transformar-se em instrumento de manipulação de uma juventude moral e espiritualmente desnorteada.

Se não há espaço para moralismos no mundo da arte também não o há para tentativas autoritárias de impor um imoralismo por meio do fomento estatal a despeito das susceptibilidades morais daqueles mesmos que pagam impostos para que a suposta arte que lhes ofende se faça encenar. A arte é liberdade, é criação. Criação pressupõe autonomia. Não tem nada a ver com estado, fomento, política ou ideologias.