Filosofia e Liberdade

por Catarina Rochamonte
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Os Desatinos da Gestão da Segurança Pública do Ceará


Os Desatinos da Gestão da Segurança Pública do Ceará: Da Irresponsabilidade Perversa do “Ceará Pacífico” de 2015 até o Fetiche Tecnológico Inútil do NESP de 2019 (Por José Raimundo Carvalho)

Após o 5º dia de ataques a prédios, veículos e ônibus, o Ceará volta a vivenciar uma realidade cruel: a dinâmica criminal, protagonizada por grupos narcotraficantes, continua se antecipando ao governo. Por mais “inteligente”, “tecnológico” e “sofisticado” que o Governo Coiote possa ser, sempre fica atrás dos grupos narcotraficantes Papa-Léguas.

A sucessão de erros que nos levou à situação atual começa nos primeiros meses da gestão anterior (vale salientar, o atual governador é o mesmo da gestão passada!), em 2015, com a adoção do “Ceará Pacífico”, um plano de segurança pública mal concebido, inadequado e pessimamente implementado. Um erro fatal, primitivo, bucéfalo! Não faltaram tentativas de interlocução com a gestão estadual, sem sucesso. O Coiote nunca ouve, sempre está a pensar e maquinar suas tolices e inutilidades às custas da miséria da violência e insegurança da população do Ceará. No desenho animado isso nos faz rir, relaxa, mas na vida real o resultado foi a instalação de uma infraestrutura criminal e narcotraficante no Ceará, algo que previsivelmente seria duradouro e difícil de combater

O “Ceará Pacífico” nos apresentou às cifras estratosféricas de homicídios de 2017 e de 2018. Nos trouxe também as chacinas, recordes de matanças de mulheres, e os ataques terroristas de grupos narcotraficantes contra a sociedade e o Estado. Diante de tudo isso a gestão estadual permaneceu atônita, despreparada, confusa e inoperante. Colocou a culpa em tudo e em todos, estereotipou à vontade e, sem o mínimo respeito ou dignidade, profanou a memória de várias vítimas de homicídio, acusando-as de serem “ligadas ao tráfico”. A tudo isso, movimentos de direitos humanos e paladinos pseudo-intelectuais das universidades, professores e Reitores, se apequenaram e se tornaram descaradamente subservientes ao ideário: nada falaram, nada fizeram, se resignaram ao mau-caratismo. Todas essas figurinhas comungaram de um silêncio asqueroso e imoral diante do viés perverso ideológico das suas mentes medíocres.

Após o desastre da gestão anterior, quando tudo parecia melhorar, a gestão se envaidece em vídeos, mídias sociais e reclama a paternidade da queda da violência no estado, ainda que praticamente todos, repito todos, os estados tenha experimentando uma queda acentuada na violência letal desde final de 2018 e início de 2019. O mesmo governo, a mesma gestão, batiza esse “milagre cearense” de NESP (Nova Estratégia de Segurança Pública): uma verdadeira parafernália midiática e pirotécnica para reivindicar um lugar na história da queda da criminalidade no estado. Criminalidade essa criada pela mesma gestão estadual.

Mas o que é mesmo o NESP? Um sistema de identificação de placas de veículos em tempo real? Mas isso já existe há pelo menos 20 anos em qualquer lugar do mundo! Um sistema automatizado de BI (Business Inteligence) que capta dados de criminalidade e produz informação para os comandos policiais? Mas isso já funcionava na própria Secretaria de Segurança Pública do Ceará desde 2010. Uma nova política penitenciária que, de maneira açodada e sem planejamento separa facções rivais? Mas qual a novidade disso? Quais os custos presentes e futuros disso? Talvez a maior novidade da NESP seja o site, muito bem feito, com um design futurista e tecnológico, quase um convite a se jogar um videogame. Irresistível para adolescentes, bajuladores do governo, cínicos e deslumbrados. O governo escolheu enfrentar o problema, criado por ele mesmo, através de fetiches tecnológicos.

O essencial não mudou na segurança pública do Ceará! Falta investimento, faltam contratações na PM e na PC, faltam analistas criminais, falta inteligência de verdade, faltam coletes a prova de bala, falta treinamento adequado, falta articulação com governo federal, portos e aeroportos, falta HUMILDADE do governo em reconhecer que ele criou um monstro entre 2015 – 2018 por sua incapacidade de gerir sua segurança pública sem viés ideológico. E esse monstro, em forma de uma articulação e domínio profundos de grupos narcotraficantes na sociedade cearense jamais vistos, nos colocou em uma realidade ímpar no Brasil. Somos o Rio de Janeiro da era Brizola, só que com muito mais violência, homicídio, sofrimento, medo e dor.

Nem mesmo o Chuck Jones imaginaria tamanho realismo profético da sua criação de 1949, sucesso mundial nos desenhos animados dos estúdios da Warner Brothers. Uma pena que a nossa gestão nunca consegue alcançar os grupos narcotraficantes, nem os controlar, muito menos encerrá-los. Continuamos precisando de ajuda do Governo Federal. Beep – beep!

(OBS. Por se tratar de tema urgente, mas que não é da nossa especialidade cedemos excepcionalmente o espaço desse blog e publicamos, em primeira mão, a análise de José Raimundo Carvalho, professor do Curso de pós-graduação em Economia CAEN/UFC, com atuação e pesquisa na área de Análise Estatística Criminal, Segurança Pública, Violência Doméstica e de Gênero, Economia do Crime e Desenho de Pesquisas e Questionários Socioeconômicos e de Vitimiza. O texto é de inteira responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião da Focus.jor)