Filosofia e Liberdade

por Catarina Rochamonte
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O que é Filosofia Política (continuação) – política, filosofia e virtude


Ao estudar Filosofia Política a partir de Leo Strauss, uma das coisas que chama atenção é a ênfase dada à questão da virtude. Segundo Strauss, há um acordo fundamental na filosofia política clássica – rompido na modernidade – de que a meta da vida política é a virtude. Na argumentação final do ensaio “Sobre Filosofia política clássica”, Strauss explica que, sendo o propósito da filosofia política clássica “solucionar controvérsias políticas de caráter típico e fundamental no espírito não do partidário, mas do bom cidadão, e com vistas à ordem que estaria mais em acordo com as exigências da excelência humana”1 , o cumprimento desse propósito exigia o levantamento da questão filosófica “o que é a virtude?” por meio da qual não apenas a opinião comum ou a opinião política era transcendida, mas a própria dimensão política, evidenciando-se assim “que a meta última da vida política não pode ser realizada pela vida política, mas apenas por uma vida devotada à contemplação, à filosofia.”2 A importância fundamental dessa descoberta também é imediatamente destacada por Strauss: ela “determina ao limites da vida política, de toda ação e planejamento político3.”

Isso implica não apenas que a filosofia política “se transforma numa disciplina que não mais diz respeito às coisas políticas no sentido ordinário do termo4”, mas também que a própria filosofia carrega consigo a responsabilidade de se justificar “perante o tribunal da comunidade política5a fim de “provar aos cidadãos que a filosofia é permissível, desejável ou mesmo necessária;6e que aos filósofos – embora bem lhes aprouvesse permanecer na ilha dos bem-aventurados contemplando a verdade – cabe descer “de novo à caverna da vida política.7”A República de Platão é, então, interpretada por Strauss como “uma tentativa de oferecer uma justificação política da filosofia, mostrando que o bem estar da comunidade política depende de maneira decisiva da Filosofia8.”Trata-se, pois, na filosofia política clássica, não apenas de uma conjugação entre ética e política, mas também de um “insight sobre os limites da esfera política-moral.9

A tensão entre política e filosofia é o reflexo da tensão entre o ethos da pólis e o ethos do indivíduo. A vida e a obra de Platão foi a grandiosa expressão desse conflito. Tendo testemunhado a Guerra do Peloponeso, o regime dos trinta tiranos, a sua destituição pelo partido democrático, as inúmeras guerras das pólis helênicas e suas ligas, a ascensão da Macedônia sob Filipe II e, principalmente, a condenação de Sócrates à morte, Platão – cuja nobre linhagem incluía Sólon – refreara o desejo de participar diretamente da política pois “entendera (o que os reformistas e revolucionários modernos parecem incapazes de entender) que uma reforma não pode ser alcançada por um líder bem-intencionado que recrute seus seguidores entre as próprias pessoas cuja confusão moral é fonte da desordem.10

A partir dessa constatação, conforme nos explica Eric Voegelin, no volume III da obra Ordem e História, Platão parte para o esforço quase miraculoso de “consertar o péssimo estado em que todas as pólis da época se encontravam11” e assim “renovar a ordem da civilização helênica a partir dos recursos de seu próprio amor pela sabedoria, fortificado pela vida e pela morte paradigmáticas do mais justo dos homens, Sócrates12

No sentido prático e imediato, seu esforço de resistir à desordem circundante e restaurar a ordem por meio do amor à sabedoria foi um fracasso, tendo sido um sucesso, porém, no sentido de ter criado, em seus diálogos, “os símbolos da nova ordem de sabedoria, não apenas para a Hélade, mas para toda a humanidade.13

1STRAUSS, Leo. Introdução à Filosofia Política: dez ensaios. São Paulo: É realizações, 2016. p.87

2Idem p. 88

3Idem p. 88

4Idem p. 88

5Idem p. 90

6Idem p. 90

7Idem p. 89

8Idem p. 90

9Idem p. 91

10VOEGELIN, Eric. Ordem e História. V III. Edições Loyola: São Paulo, 2009. p.65

11Idem p. 65

12Idem p. 65

13Idem p. 66