Filosofia e Liberdade

por Catarina Rochamonte
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O infame AI-5, a irresponsabilidade e a hipocrisia


É de todo impróprio que o presidente Jair Bolsonaro governe em condomínio com os filhos e em função dos seus caprichos. As falas impróprias do presidente já são suficientes para causar problemas ao governo; somadas aos desatinos dos filhos, cria-se situação explosiva. A fala infeliz do deputado Eduardo Bolsonaro, aventando a possibilidade de um novo AI-5, que trouxe contra si a unanimidade do Parlamento e fortíssima reação da sociedade civil, seria menos traumática se não tivesse sido imediatamente vista como parte de uma estratégia do próprio governo para testar os limites da resistência democrática a uma eventual investida autoritária do núcleo de poder familiar. Para os que ainda esperam que o presidente Bolsonaro realize um governo exitoso, o melhor sinal que dele poderia vir seria a sua emancipação: que se livre da tutela dos filhos e governe para os brasileiros. Se tentar seguir governando em simbiose com o seu clã, na pisada de um desatino familiar por semana, o atual governo não terminará bem.

O Ato Institucional Nº 5 foi o instrumento que permitiu ao regime militar imposto em 1964 efetivar-se como ditadura plena e iniciar o terror de Estado, efetuando prisões arbitrárias, promovendo torturas e assassinatos. Com tal infâmia, não deveriam transigir democratas, liberais ou conservadores, de nenhum matiz.

O pai presidente já admoestou o filho e Eduardo Bolsonaro pediu desculpas pelas suas infelizes palavras,  mas pouco adiantou: os partidos de esquerda agora estão em festa com mais uma declaração irresponsável e descabida dos Bolsonaros a favorecer o avanço da sua própria agenda autoritária.

Apologia de ditaduras e de seus instrumentos é sempre algo reprovável, especialmente quando parte de titulares de um dos poderes democráticos. Não menos reprovável, portanto, é a apologia constante que os partidos de esquerda fazem das ditaduras quando estas são de esquerda. A esquerda autoritária, que agora faz sensacionalismo com os despautérios de Eduardo Bolsonaro, não tem nenhuma autoridade moral para fazê-lo. Mesmo assim, parlamentares já anunciam que vão pedir ao Conselho de Ética da Câmara a cassação do mandato do deputado.

Recentemente, a deputada Gleisi Hoffmann, presidente do PT, fez uma visita de apoio e solidariedade ao ditador da Venezuela, Nicolás Maduro, ao mesmo tempo em que essa ditadura assassina massacrava seu povo. Gleisi não foi cassada e ninguém aventou fazê-lo. Por quê?