Filosofia e Liberdade

por Catarina Rochamonte
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Lula, Bolsonaro e a guerra da comunicação


Dizer que a imprensa é um campo de batalha é lugar-comum. Sendo que, muitas vezes, os governantes entram nesse campo de batalha para atacar a própria imprensa. Eis que, por esses dias, o presidente Jair Bolsonaro recebeu insólito apoio do ex-presidente Lula nas suas costumeiras críticas à imprensa: “Acho que tem crítica que ele faz que é correta”, disse o ex presidente. “Dê a ele o mesmo direito que dá aos outros, direito de falar, abra para ele falar”; agora, o Bolsonaro está provando que é possível fazer notícia sem precisar dos jornais, da televisão. Ele faz por ele mesmo”, complementou. Nessa recente entrevista, concedida ao UOL, Lula mente muito, o que não é novidade; novidade é ele apoiar Bolsonaro em alguma coisa.

A imprensa brasileira – escrita, falada e televisionada – é apreciável não devido a que estes ou aqueles jornais e emissoras de rádio e televisão sejam excelentes, mas porque são vários e de tendências ideológicas/políticas/culturais diversas. O seu caráter democrático consiste justamente na pluralidade e diversidade de posições. Verdade seja dita que, por comprometimento ideológico ou por interesse econômico, este ou aquele órgão de imprensa pode descer a um nível baixo, adulando ou perseguindo além de toda a razoabilidade. Cabe ao leitor ter perspicácia para perceber isso e ir buscar veículos mais idôneos ou comparar os vários veículos de comunicação aos quais pode ter acesso já que no Brasil felizmente temos liberdade de imprensa.

Os governos petistas tentaram, sem sucesso, submeter a imprensa ao seu controle e censura. Fora do poder eles não apenas mantêm essa intenção autoritária, como a defendem em documentos oficias usando o termo “regulamentação”. Na entrevista supracitada, Lula relaciona a TV Globo com o nazismo. É uma fala tosca que serve ao autoritarismo de esquerda, que rotula de nazista tudo aquilo que contrarie seus interesses. Sabemos que, quando convém, a esquerda elogia realizações da TV Globo, muitas delas afinadas com a pauta progressista. A reclamação de Lula se dirige particularmente contra os noticiários e narrativas políticas da TV Globo.

Quando, no primeiro governo Lula, foi descoberto o grande esquema de corrupção que veio a ser denominado de “mensalão do PT”, a Globo e toda a restante mídia noticiou o que tinha de ser noticiado. Em seguida aconteceu o mesmo com o escândalo de corrupção internacional chamado “petrolão”. Lula, o PT e seus satélites reclamaram e continuam reclamando, mas não reclamam que hoje a imprensa divulgue amplamente o caso envolvendo Fabrício Queiroz e Flávio Bolsonaro, investigados por uma suposta corrupção de “rachadinha”. Também o PT não reclamava quando a revista Veja estampava as mazelas do presidente Collor de Melo, que a esquerda queria ver fora do poder. Pelo contrário, deputados petistas faziam discursos inflamados da tribuna da Câmara empunhando, como se fosse um gládio ou estandarte, o último exemplar da Veja, que estampava manchetes com denúncias contra Collor. À sua época, o presidente Collor muito reclamou da perseguição da imprensa.

É preciso entender que um mesmo órgão de imprensa pode ter seus momentos baixos e momentos altos de excelência jornalística. Collor, Lula, Bolsonaro ou qualquer outro governante tem todo o direito de reclamar da atuação da imprensa; importa à democracia que não o faça de forma abusiva e aja de forma autoritária.