Filosofia e Liberdade

por Catarina Rochamonte
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Culto à personalidade e servilismo ideológico


Uma das coisas mais degradantes que a mistificação política já produziu foi o chamado “culto à personalidade”, que se difundiu pelo mundo durante o século XX. O que houve de semelhante foram coisas da Antiguidade, tais como a divinização dos faraós no Egito ou o culto imperial em Roma, incluindo-se aí o ritual da apoteose, que é a divinização post mortem. A retomada desse atraso foi obra do regime totalitário marxista-leninista implantado na Rússia após a Revolução de 1917, tendo atingido seu apogeu na era stalinista. Essa espécie de idolatria moderna estendeu-se por todos os regimes comunistas do mundo, tendo ainda ecoado nos regimes nazifascistas. De Stalin a Hitler, o culto ao chefe tornou-se estratégia e dogma; o servilismo mais baixo e a bajulação mais extrema tornaram-se exercício diário e obrigatório dos militantes de um e outro credo.

Para nossa vergonha e tristeza, o infame culto à personalidade não sobreviveu apenas em países comunistas remanescentes, como a Coreia do Norte, mas também vicejou aqui mesmo no Brasil, onde se construiu o culto à personalidade de Lula da Silva. Não se sabe exatamente quando esse culto começou, mas um evento marcante na sua consolidação foi quando a “filósofa” marxista Marilena Chauí declarou que “quando Lula fala, o mundo se ilumina.”

Quando Lula estava no poder, o culto à sua personalidade era extenso e organizado, incluindo o ritual do recebimento de títulos de Doutor Honoris Causa em tudo quanto era Universidade no Brasil. Hoje, que Lula foi condenado e está preso por crime de corrupção, o culto é menos extenso e um tanto desorganizado, mas ganhou muito em histeria. Nas redes sociais, por exemplo, muitos dos fanáticos que cultuam Lula juntam esse apelido ao próprio nome e outros já estão dividindo a foto do próprio rosto com o rosto de Lula. É tudo muito bizarro, mas os fanáticos ostentam sua bizarrice com orgulho. Coisa parecida vemos hoje na Coreia do Norte, onde os homens cortam o cabelo ao estilo do ditador Kim Jong-Un. Naquele regime comunista, porém, muitas bizarrices bajulatórias são obrigadas por lei, enquanto aqui as loucuras em torno do nome de Lula são feitas por devoção mesmo.

O efeito pernicioso desse culto à personalidade de Lula, uma figura política já em declínio, é reduzido; mais ridículo do que eficiente, pois a eficiência do culto à personalidade conjuga-se com o poder de Estado. Por isso mesmo convém atentarmos para o culto à personalidade que se tem tentado construir em torno do presidente Jair Bolsonaro. Em vídeo recente o influente filósofo Olavo de Carvalho orientou a criação de uma militância rigidamente bolsonarista, preocupada não com ideias e princípios, mas tão somente decidida a obedecer ao chefe. Olavo foi bastante enfático: Eu não disse militância conservadora, nem liberal, eu disse bolsonarista mesmo”.

A prudência é uma marca do pensamento conservador e, por isso mesmo, não cremos que um culto à personalidade de Bolsonaro prospere para além de um grupo reduzido de sectários. Mas sempre é bom o alerta. Se o presidente Bolsonaro se arriscar vaidosamente a incentivar essa vereda maldita o que mais provavelmente colherá será o esvaziamento do campo que lhe garantiu a vitória na eleição de 2018, já que a direita democrática e liberal, que majoritariamente o apoiou no segundo turno, rejeita totalmente essas iniciativas, sentindo instintiva repulsa por tais excrescências autoritárias do atraso político.