Filosofia e Liberdade

por Catarina Rochamonte
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Comunismo não existe, disse o mago


O marxismo, para além de uma ideologia política, é também um transtorno de personalidade (só falta alguém ter coragem de incluir na Classificação Internacional de Doenças – CID). Talvez por isso, a negação – que na psicanálise é compreendida como um mecanismo de defesa – tenha uma importância estratégica na rede de mentiras e mistificação da esquerda. Sempre que alguém levanta denúncia contra malefícios e possíveis ameaças do comunismo – que é o socialismo marxista – a esquerda corre para dizer que isso é coisa do passado, do tempo da guerra fria, que foi abaixo junto com o muro de Berlim e que voltar ao tema é demonstração de atraso ideológico.

Tal foi o caso do escritor Paulo Coelho, ao declarar, em recente entrevista para a BBC Brasil, que “comunismo não existe mais. Nunca existiu, existia um regime soviético horroroso”. Mais adiante ele ainda afirma: “Eu, como todas as pessoas da minha geração, namorei o comunismo. Eu queria visitar os países comunistas.” Mas como, eu me pergunto, algo que nunca existiu pode não existir mais? Como, meu Deus do céu, alguém namora algo que nunca existiu e visita países fantasmas? Só mesmo sendo mago e tendo feito o caminho de Santiago de Compostela para conseguir essa proeza. Da sua alta sapiência espiritual, o escritor mais super-mega-ultra popstar, traduzido no mundo todo e que bateu todos os recordes possíveis e imagináveis de venda de livros, afirma, na referida entrevista, que tem inveja do youtuber Felipe Neto e que tem Glenn Greenwald como ícone. Acho que ele deveria refazer a peregrinação…ele era jovem, podia estar “chapado” ou ter tomado a estrada errada, sabe-se lá.

Mas deixemos Paulo Coelho com esse tipo de ícone e com sua inveja do youtuber de cabelo colorido. Voltemos à negação como sintoma e mecanismo de defesa e observemos que essa mesma esquerda, ordinariamente, por qualquer motivo, com a maior sem-cerimônia, levanta contra seus adversários a pecha de “fascista” e procura assustar a todos com a ameaça do fascismo.

Comunismo e fascismo – destacando-se o nazifascismo – são doutrinas hediondas, responsáveis pelos desgraçados regimes totalitários do século XX. É fato que o império comunista soviético ruiu pelo fim do século passado, tendo na queda do muro de Berlim, ocorrida em 1989, seu momento simbólico. Por sua vez, muito antes da queda do muro de Berlim, fascismo e nazismo haviam sido aniquilados com a vitória dos Aliados em 1945. Então eu pergunto: porque cargas d´água o fascismo permanece como possibilidade ameaçadora e o comunismo não? Se alguém denunciar uma ameaça fascista – e ameaças desse tipo, quando reais, devem sempre ser denunciadas –, a esquerda aplaudirá. Pelo contrário, se alguém denunciar uma ameaça comunista, será tachado de fascista pela esquerda. Basta alguém se referir de forma depreciativa ao socialismo, ao comunismo ou ao marxismo para o mundo vir abaixo.

É estranho que uma doutrina que não existe tenha tantos partidos no Brasil que se autodenominam como tal. Temos os que são declaradamente adeptos do marxismo-leninismo, como o Partido da Causa Operária (PCO) e o Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU), ambos de linha trotskista; temos também o recriado Partido Comunista Brasileiro (PCB), além do Partido Comunista Revolucionário (PCR). Mesmo assim, segundo a esquerda disfarçada em pele de cordeiro – ou segundo essa mente privilegiada por algum dom sobrenatural adquirido, talvez, junto aos milhões de reais da venda de seus best sellers – o comunismo segue não existindo e cogitar da sua possibilidade no Brasil seria coisa de mentecaptos.

Comunismo no sentido idealizado – como igualdade e fraternidade universais –, isto, de fato, não existe. Porém, o socialismo e comunismo de que se trata são aqueles regimes perversos implantados pelas revoluções marxistas no século passado sob justificativa desse mesmo comunismo que jamais existirá. Segundo a doutrina marxista-leninista, o socialismo seria a porta de entrada, ou a primeira fase daquele paraíso terrestre que o marxismo chama de comunismo. Foram os próprios socialistas marxistas que chamaram para seus partidos a denominação de “comunista” e trataram de construir esse comunismo, com os resultados que já se conhece.

O socialismo/comunismo real e prático existiu e persiste em alguns países. O regime de Cuba, até recentemente apoiado e financiado por governos brasileiros, é uma ditadura de partido único; partido este chamado Partido Comunista. Na China, também domina a ditadura do Partido Comunista. Já o partido dominante no regime comunista da Coreia do Norte se chama Partido dos Trabalhadores da Coreia. Na Venezuela, com a amizade e apoio da ditadura de Cuba – e até recentemente com apoio e financiamento de governos brasileiros – o autodeclarado “socialismo do século XXI” destruiu o país. Porém, pela nova retórica da esquerda, também o socialismo vai passando a não mais existir e, conforme nos ensinam doutos esquerdistas e magos alquimistas brasileiros, por não existir não pode ser ameaça a nada e deve ser deixado de lado como coisa de somenos. Enquanto isso, o país vizinho padece sob uma tirania socialista sobre a qual o mago espiritual escritor de best sellers não se pronunciou, preocupado que está com o encaminhamento do Brasil para um “conservadorismo cultural.”

Enfim, nem socialismo, nem comunismo, nem marxismo…, nada disso; hoje, o que existe de bom é somente o “progressismo”. Não duvidem, porém, que quando o acúmulo de equívocos desgastar também essa denominação, a esquerda a esconderá e tachará de retrógrado quem a pronuncie, não tardando o dia em que a esquerda se envergonhará da própria denominação de “esquerda” e, num processo psicótico, passará a se esconder de si mesma dizendo que ela mesma nunca existiu.