Filosofia e Liberdade

por Catarina Rochamonte
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Ano novo, política nova


As adversidades enfrentadas por aqueles que se dispuseram a entrar na política nesse tempo de transição, de rupturas, de mudança de paradigma não podem ser mais determinantes que a vontade de justiça que lhes move. Houve, no ano que passou, a entrada em cena de novos personagens políticos , mas houve também a manipulação do novo cenário, a utilização de um novo discurso para dar passagem sub-reptícia a velhas e já rechaçadas práticas. O discurso de renovação política, portanto, já não nos dirá muita coisa esse ano caso não venha acompanhado de lisura, idoneidade, ousadia e coragem para enfrentar os poderosos e minar as estruturas de poder engessadas nos maus hábitos.

A res pública não é um cofre aberto à disposição de quem tem maior articulação política ou esperteza para abocanhá-lo. É preciso repensar todo o modelo político para que ele não ofereça privilégios, atrativos financeiros ou afagos ao ego. É preciso uma estrutura de governo enxuta, simples e modesta a fim de que reste ali simplesmente aqueles que, afeitos à causa do bem comum e ciosos do seu dever de cidadãos sintam-se aptos e vocacionados a contribuírem com o seu serviço à sociedade. Todo modelo político que oferece excessivas vantagens aos políticos e àqueles que lhe estão próximos é corruptor, pois coloca incentivos onde não os cabe, atraindo pessoas para a vida pública por motivos que não são os legítimos e ideais.

Os que querem mudança precisam atentar para não cederem demais aos caprichos da casta política incrustada no poder a fim de chegarem lá. Não se negocia virtude, não se negociam princípios, não se negociam preceitos básicos de conduta ética sem os quais a própria escalada ao poder já compromete aquele que se dispôs a escalar. Os fins não justificam os meios. O meio – sendo justamente a concretude da ação que tende idealmente para determinado fim – não pode jamais negligenciar princípios de retidão, sob pena de corromper na raiz aquilo que realmente importa: o indivíduo.

Todo processo político eficaz passa pelo senso de justiça individual e todo político que quer governar ou legislar de maneira justa deve começar ajustando suas próprias atitudes desde as suas primeiras pegadas no complexo e conflituoso labirinto dos jogos de poder que pretende enfrentar.