Filosofia e Liberdade

por Catarina Rochamonte
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Adágios velhos para eleições novas


Estamos em ano eleitoral, momento, pois, de acelerar o debate para que o eleitor possa melhor formar opinião e consolidar convicções, habilitando-se a, por exemplo, não votar em gato por lebre, nem em lobo por cordeiro, nem em rato por arminho. Para quem não sabe, o arminho é símbolo de pureza e integridade; dizem que prefere a morte a que lhe sujem o pelo, daí a sentença latina a ele associada: “malo mori quam foedari”/antes a morte que a desonra. Isso serve para alguns, mas são exceções. À maioria dos políticos, porém, adequa-se mais um adágio menos erudito, aquele que diz: “farinha pouca, meu pirão primeiro”.

Vejam o caso do dinheiro do Fundo Eleitoral, aprovado pelo Congresso Nacional na quantia de R$ 1,7 bilhão para 2019. Não contentes, resolveram aumentar para R$ 2 bilhões em 2020 (sem falar dos bilhões do já mais antigo Fundo Partidário). Bilhões de reais tirados da saúde, da educação e do saneamento básico para forrar as burras dos políticos; uma farra eleitoral. E vejam que, conforme o que foi aprovada no Congresso, os políticos candidatos poderão usar esse dinheiro arrancado dos contribuintes até mesmo para pagar advogados que arrastarão seus eventuais processos de corrupção até as calendas gregas, cuidando para que nunca se chegue ao “trânsito em julgado”.

O Fundo Eleitoral, também chamado de “Fundão”, pode ser vetado pelo presidente Bolsonaro, mas ele tem indicado que não o fará. Diz que não vetará para não sofrer impeachment. Essa questão é controversa e muita gente considera que seja mera desculpa. Seja como for, Bolsonaro acrescentou um conselho: que não se vote em candidato que use o Fundo Eleitoral.

Algumas questões nacionais têm óbvia repercussão municipal: atingem a sua cidade, o seu bairro e a sua casa. É o caso desses bilhões de reais retirados da Saúde, da Educação e do Saneamento Básico para reforço de um já bilionário Fundo Eleitoral.

Nas eleições municipais, os candidatos – prefeitos e vereadores – podem ser vistos de muito perto; assim será mais fácil escolher. Embora, às vezes, seja mais difícil resistir ao assédio na compra de votos, à má-fé de parte da imprensa vendida, à demagogia, ao populismo, ao discurso meramente retórico de renovação, ao impacto de rios de dinheiro derramado em cima de um escolhido por grupos políticos encastelados no poder, ao desequilíbrio proporcionado pelo poder financeiro, ao poder do marketing, etc.

O exercício da cidadania, porém, requer autonomia. Requer esperança sem ilusão, boa vontade sem ingenuidade, pragmatismo sem falta de ética. Se não estivermos atentos, se não fizermos um esforço para escolher criteriosamente os nossos representantes municipais estaremos sendo cúmplices da perpetuação de um ciclo vicioso que mantém um povo carente e estagnado, à mercê do assistencialismo daqueles que não querem a libertação das consciências, mas o aliciamento para suas causas.

O que primeiro promove o cidadão é o seu próprio esforço. E não deixar que pessoas indignas cheguem ao poder ou voltem ao poder é uma forma de não deixar que o produto do seu esforço lhe seja roubado.