Filosofia e Liberdade

por Catarina Rochamonte
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A esquerda não gostou do discurso de Bolsonaro na ONU. (E quem se importa!?)


Na abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas, o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, fez um discurso importante. A repercussão foi imediata e continua intensa. A esquerda – especialmente a esquerda brasileira, claro – não gostou. E não gostou de uma forma tão superlativa que está contribuindo para tornar o discurso histórico; afinal de contas, uma das medidas de grandeza de um discurso político é o incômodo que causa nos adversários. Pelo mundo todo, a esquerda criticou o discurso, mas a esquerda brasileira entrou em verdadeiro estado de comoção. Foi, aliás, ao perceber essa comoção que me apressei em assistir na íntegra essa fala um tanto longa para o padrão de Bolsonaro. Se a esquerda estava dizendo que era tão ruim, então tinha de ser bom.

Humberto Costa, líder do PT no Senado, disse que o discurso foi medieval, agressivo, preconceituoso e mentiroso”. A deputada Gleisi Hoffmann, presidente do PT, disse que o discurso “se resumiu a uma guerra ideológica” e que foi “vazio”. O deputado Alessandro Molon, do PSB disse que o discurso foi “vazio de verdades, mas cheio de agressividade e cegueira ideológica”. Devemos aqui ressaltar que “guerra ideológica” e “cegueira ideológica” são especialidades da esquerda. A esquerda brasileira, por exemplo, não consegue sequer ver ou admitir que o regime de Nicolás Maduro na Venezuela é uma ditadura.

Eles até que têm o direito de dizer tudo de ruim do discurso de Bolsonaro, mas dizer que foi vazio é “forçar a barra”: se tivesse sido vazio não haveria uma reação tão visceral, quase ao ponto de histeria. Quase ao ponto de histeria e já afundando no ridículo. Ainda na terça-feira à noite, a defesa de Lula da Silva divulgou uma nota reclamando que o discurso teria violado os direitos do presidiário e que apresentaria uma queixa contra Bolsonaro no Comitê de Direitos Humanos da ONU. Todo esse alvoroço por causa de um discurso vazio? Não, não foi um discurso vazio; foi substancial, consistente e corajoso.

O discurso tratou positivamente de questões relevantes: defendeu a soberania brasileira rechaçando os ensaios colonialistas de países europeus, levantou a bandeira da liberdade religiosa e reafirmou o compromisso do Brasil com a democracia, os direitos humanos e a liberdade de expressão. É de se perguntar por que a esquerda, que rechaçou o discurso por inteiro, incomodou-se com afirmações tão evidentemente corretas quanto estas. Talvez porque vieram acompanhadas de outras partes igualmente corretas e verdadeiras como o repúdio ao socialismo, expresso em uma excelente frase de efeito cômico e devastador: “O socialismo está dando certo na Venezuela. Todos estão pobres e sem liberdade.” Também para desespero da esquerda lulista, Bolsonaro fez um vigoroso elogio a Sergio Moro, falando no “…patriotismo, perseverança e coragem de um juiz que é símbolo no meu país…”.

Uma das críticas recorrentes foi que Bolsonaro teria falado para o “público interno” e até mesmo para o “bolsonarismo radical”. Não é verdade. Agradando ou desagradando, o presidente brasileiro falou para o mundo, tanto que o mundo repercutiu amplamente seu discurso. Certamente que falou também para o público interno, que somos nós, os brasileiros. E por que não haveria de fazê-lo? Quanto a ter visado especialmente o “bolsonarismo radical”, eu posso tirar por mim que não foi bem assim. Não sou bolsonarista, muito menos radical; e gostei bastante. Vários críticos do bolsonarismo que ultimamente vinham “baixando-lhe o sarrafo”, deram uma trégua para elogiar o discurso da ONU.

A cobertura jornalística no mundo, e ainda mais no Brasil, foi, em geral, adversa. Mas não há que duvidar que o presidente e os assessores que o ajudaram a redigir o discurso sabiam que seria assim; e tiveram a coragem de enfrentar essa previsível reação. Um dos principais jornais brasileiros trouxe uma matéria que, já na manchete, afirmava que Bolsonaro não disse o que o mundo queria ouvir. Essa crítica é tola por duas razões: primeiro, o mundo, dividido em muitas nações, não é uniforme nas suas apreciações; segundo, muitas vezes, e acho que desta vez foi o caso, é preciso que se diga exatamente aquilo que muitos não querem ouvir.