Fake Economics, por Henrique Lyra Maia


Henrique Lyra Maia é consultor.

Em um passado não muito distante as informações eram de responsabilidade das empresas de mídia de determinada região, que se encarregava de coletar, analisar e relatar os acontecimentos importantes a serem divulgados.  De certa maneira, havia uma preocupação dessas empresas de noticiarem corretamente os fatos, sob o risco de perda de confiança de seus consumidores e como consequência suas receitas.

No entanto, na revolução digital isso mudou radicalmente. Nesse momento, qualquer pessoa pode disseminar informações sem nenhuma comprovação de sua veracidade e responsabilidade. A informação elaborada por um indivíduo pode “cair nas redes” e ser amplamente compartilhada para milhares de pessoas. Por meio das redes sociais, muitas informações podem ser divulgadas e “viralizadas” por qualquer indivíduo. A partir desse novo fenômeno surge então o termo “fake news”, que é utilizado quando se quer alegar que determinado grupo de informações é distorcida ou falsa. O termo fake news é intencionalmente pejorativo, quem pratica este ato – o de espalhar notícias falsas– está em desconformidade com o que uma pessoa de boa-fé gostaria[i].

No entanto, o assunto desse artigo não serão as fake news, mas algo potencialmente pior, porque muda a nossa vida prática em um modo muito mais profundo. Apresento-lhes a fake economics.

Se aplicarmos a mesma lógica do conceito das fake news para as cadeias produtivas contemporâneas, poderíamos concluir que vivemos em um mundo fake economics, ou seja, uma economia distorcida ou falsa. A economia se torna falsa quando as transações dos indivíduos não refletem as necessidades deles próprios. Isso ocorre, quando um agente terceiro, por meio da coerção, impede que isso ocorra naturalmente. Nos dias atuais, esse terceiro é o estado, que impõe um conjunto de regras e normas a serem seguidas pelos cidadãos. Portanto, as cadeias produtivas acabam tendo que se ajustar a essas imposições, gerando distorções daquilo que seria caso o estado não as fizesse.

Inúmeras transações são impedidas de serem realizadas todos os dias, são feitas sob restrições ou são incentivadas, simplesmente porque o governo impôs como os cidadãos devem se comportar. Isso irá refletir diretamente na nossa vida no dia a dia. Setores inteiros não deveriam existir e existem. Outros deveriam existir, mas são impedidos de existir. Muitas empresas gostariam de expandir sua produção, mas enfrentam muitas dificuldades de cunho regulatório. Outras, tem sua demanda aumentada artificialmente, enquanto que as demais têm a sua suprimida. Enfim, quanto maior a intervenção do estado na vida das pessoas, maior será a fake economics. Portanto, atualmente vivemos num mundo consideravelmente fake, artificialmente criado pelo estado e nem nos damos conta disso.

Esse artigo será o primeiro de uma sequência de vários outros demonstrando como o estado cria e mantém um mundo fake economics e será mostrado como o governo distorce a economia por meio de suas ações. No entanto, antes de seguir em frente, irei introduzir o que seria o antônimo de fake economics, conheça então o real economics.

REAL ECONOMICS

O mundo real economics seria uma economia que represente as transações voluntárias entre indivíduos, ou seja, livre de imposições estatais. Esse mundo iria refletir as necessidades reais das pessoas, portanto, uma economia sem distorção. Assim, não haveria intervenções do estado para impedir que transações voluntárias possam ser realizadas, como por exemplo as regulamentações, monopólios concedidos pelo governo e impostos, apenas para citar algumas[ii].

No real economics as cadeias produtivas iriam refletir a demanda real das pessoas por produtos e serviços. Aquelas empresas que não se ajustarem as demandas da população, irão a falência e aquelas que se ajustarem, obterão lucros e irão prosperar. Se uma pessoa quisesse abrir uma empresa e vender energia mais barata, poderia fazer por conta e risco, concorrendo com toda e qualquer empresa estabelecida no mercado. Hoje, por exemplo, não é possível fazer isso porque o estado autorizou a criação de um monopólio na distribuição de energia e criou inúmeras regulamentações, prejudicando aquele empreendedor que deseja oferecer uma energia mais barata para o consumidor, que acabará pagando mais caro pelo serviço. Para que você possa abrir um restaurante, é necessário cumprir inúmeras regulamentações para que ele esteja “apto” a operar, dificultando e até impedindo empreendedores de criarem novas empresas[iii].

Na próxima seção, descreverei uma intervenção que distorce bastante a nossa economia, portanto, contribuindo para a criação do fake economics: os gastos governamentais.

GASTOS GOVERNAMENTAIS

Todo e qualquer gasto governamental é uma distorção no mercado, porque ele cria uma demanda que não reflete as iniciativas dos indivíduos e sim da pessoa no comando das pastas estatais. Por exemplo, se um determinado órgão do governo gasta R$ 200mil reais por ano em materiais de expediente, esse recurso foi retirado à força via impostos dos cidadãos e gasto nesse tipo de bem. Se o órgão não existisse e os impostos não fossem retirados dos cidadãos, esses mesmos R$ 200mil seriam gastos com outras coisas, portanto, o governo distorceu a cadeia que fornece materiais de expediente criando uma demanda que provavelmente não existiria e ainda impediu que uma demanda não fosse atendida em outros segmentos. Esses mesmos R$ 200mil por ano, se devolvidos aos cidadãos, poderiam ser divididos em inúmeros outros gastos cotidianos dos indivíduos como alimentação, saúde, educação, aplicações financeiras, entre outras. Assim, esses segmentos citados são obrigados a ter uma demanda reprimida em detrimento do segmento de material de expediente que ficou maior devido aos gastos governamentais. Ou seja, o governo aumentou a demanda de um segmento e suprimiu a demanda de outro.

No Brasil, o orçamento do governo para 2019 foi de aproximadamente R$ 3,2 trilhões, para se ter noção do quão distorcida é a nossa economia, de tudo que o país produz, quase 50% é gasto governamental. Se todo esse gasto fosse eliminado e o recurso devolvido para as pessoas, será que as cadeias produtivas do Brasil seriam as mesmas de hoje?[iv] Um absurdo afirmar que sim. Dessa forma, quanto maior o gasto governamental, maior é a distorção da economia, portanto, maior será a distância entre a real economics (a economia real, livre de intervenção) versus a fake economics (a economia atual, com intervenção). Vivemos assim em uma economia distorcida em aproximadamente três trilhões, claramente fake, criada e mantida pela intervenção estatal.

Uma parte desse gasto do governo é despesa de pessoal, aproximadamente 24% da receita líquida, cerca de R$ 350 bilhões em previsões orçamentárias para 2019[v]. Cada funcionário contratado desempenha uma função específica, exigindo uma qualificação também proporcional ao cargo que lhe fora conferido. Um procurador, por exemplo, tem que ter uma formação em direito. Um contador, em contabilidade e assim por diante.

Toda a cadeia da educação foi distorcida porque arbitrariamente o governo decidiu que a sua estrutura necessita de X advogados, Y contadores, W assistentes sociais e assim por diante. Se o governo demitisse toda essa estrutura e os recursos gastos devolvidos aos cidadãos, provavelmente, teríamos uma outra configuração de profissões no mercado, porque os indivíduos iriam escolher diferentes carreiras com base na demanda por profissões na economia real, que iria ser formada voluntariamente pela demanda por contratação de empreendedores e não arbitrariamente decida pelo governo.

Com o dinheiro devolvido aos cidadãos, eles iriam gastar de acordo com suas próprias preferências como por exemplo em alimentação, roupa, transporte, entre outros. Ao aumentar a demanda por esses bens e serviços, muitas profissões terão sua demanda também aumentada como cozinheiros, estilistas, costureiras, atendentes, caminhoneiros, vendedores, frentistas, ou seja, profissões muito diferentes daqueles que o governo atualmente emprega.

A cadeia da educação seria inevitavelmente modificada e as pessoas ao observar a demanda real por empregos, iriam ponderar quais profissões estão sendo demandadas pelas empresas, seus respectivos salários, sua situação financeira e com seus talentos, para assim decidir o que fará com sua própria vida. Assim, além de distorcer a economia, o governo também interfere em como as pessoas tomam decisões de carreira[vi].

Em resumo, o governo, por meio dos seus gastos, distorce a economia em quatro maneiras distintas: a) cria uma demanda por bens e serviços que provavelmente não existiriam se o dinheiro fosse gasto voluntariamente pelos cidadãos ou existiriam em quantidades diferentes; b) impede que outros bens e serviços se desenvolvam porque o gasto já foi comprometido com determinados setores arbitrariamente em detrimento de outros; c) cria uma demanda para determinadas profissões que seria diferente das necessidades do mercado; d) impede que outras profissões cresçam e floresçam porque o governo alocou esses gastos para determinadas profissões arbitrariamente.

REAL ECONOMICS OU FAKE ECONOMICS?

De posse da informação de que o governo coleta e gasta quase 50% de tudo que é produzido no Brasil, você percebe a dimensão de quanto nossa economia é fake[vii]. A estrutura de produção da nossa economia não representa a realidade, ela responde praticamente metade ao que o governo decide com seus gastos e demais intervenções. Muita coisa que deveria existir, simplesmente não existe e todos nós ficamos sem esse incremento de bem-estar. Muita coisa não deveria existir, mas existe, mudando a estrutura de produção de acordo com as decisões dos comandantes de pastas estatais e não pelos indivíduos da sociedade.

Qual mundo você gostaria de viver: um mundo real ou fake economics? Se por um lado queremos combater as fake news, presumo que deveríamos também combater a fake economics. Viver num mundo real economics é antes de tudo respeitar as decisões dos indivíduos e as consequências que essas decisões têm para as cadeias produtivas, mesmo que isso contrarie a vontade dos grupos de pressão, lobbies e preferências governamentais. Nesse mundo, serão as pessoas que irão dizer qual a configuração que a economia terá, por meio dos seus gastos individuais e enviando sinais para que empreendedores possam utilizar recursos escassos para criar novos produtos e serviços para atender essas preferências.

Resta saber o quão longe você quer combater as intervenções e respeitar as preferências individuais dos cidadãos em prol daquelas decididas arbitrariamente pelo estado. Um mundo novo se abrirá quando permitimos que os indivíduos voltem a ter o poder que tinham no passado e dirijam a economia, em vez de deixar nas mãos de agentes estatais.

Deixo ao leitor a reflexão e decisão individual, em que mundo você quer viver?

NOTAS 

[i] [i] Há também aquelas pessoas que divulgam fake news sem saber, mas também não fazem esforço para verificar a procedência daquilo que se está sendo compartilhado.

[ii] Por ora, peço que o leitor considere que nessa situação hipotética não há violência de qualquer natureza perpetrada por indivíduos, exemplo: roubo, ameaça iminente, etc.

[iii] A recente aprovada lei da “liberdade econômica” avançou nesse item, mas ainda está longe de resolver o problema do excesso de regulamentações para se empreender no Brasil.

[iv] Veja em http://www.portaltransparencia.gov.br/despesas e https://www1.siop.planejamento.gov.br/. Acesso em 21/outubro/2019.

[v] Para que esse artigo não fique excessivamente extenso, não será explorado as outras despesas do governo como as relacionadas ao serviço da dívida e previdenciária (as mais relevantes), nem tampouco outros tipos de intervenções que distorcem a economia como impostos, regulamentações, incentivos fiscais, entre outros. Esses temas serão objetos de artigos futuros.

[vi] Utilizando esse raciocínio, já poderíamos sugerir que o governo contribui para a concentração de renda, visto que os cargos estatais exigem uma qualificação superior àquelas que provavelmente seriam praticadas no mercado se o dinheiro fosse devolvido ao cidadão, como foi citado no texto, a saber: cozinheiros, atendentes, motoristas, etc.

[vii] Obviamente, podemos concluir que vivemos em um mundo fake economics, não é apenas no Brasil que o estado distorce a economia, esse padrão se expandiu muito no último século.