Entre Paredes. Por Angela Barros Leal


Os contornos bidimensionais de uma bala eram claramente visíveis no raio-X que ela puxou da bolsa, e me mostrou. Tomei dois tiros, tinha me contado antes, em meio ao movimento da sala de espera para consulta, nosso rosto e nossa voz encobertos pela máscara protetora sob a qual nos ocultamos todos, em tempos de pandemia. Temos à frente pelo menos uma hora até sermos atendidas, ela por um médico, eu por outro. E não nos conhecemos, o que facilita confidências.

Ela havia, distraidamente, caído em meio a um fogo cruzado. Estava em lugar errado, na hora errada, nessas tantas guerras urbanas. Uma das balas havia penetrado na mochila de couro que ela trazia ao ombro, e fora detida por uma agenda estudantil, de capa grossa. A outra perfurara a blusinha jeans que ela vestira naquele dia, penetrando nas costas, porém encerrando o trajeto antes de atingir a coluna.

Um homem, o alvo da caçada, tinha sido atingido pela frente, com seis balas no tórax. Ela de lado, na altura do cinto, e nas costas, os disparos seguindo seus movimentos de fuga. Periodicamente precisava realizar exames para verificar se o projétil continuava no mesmo lugar, já encapsulado pelo organismo.

Mais tarde é que fui saber de toda a história, me diz pensativa, abanando-se com um envelope apesar de estar ligado o ar-condicionado. Gangues imperavam naquele trecho da cidade onde morava desde a adolescência, e as leis de vingança eram tão impiedosas quanto as leis da Máfia. Ai de quem os dados da sorte lançassem no meio de mais um conflito, como havia sido o caso dela, envolvida por acaso numa carnificina de retaliação.

Não perdera sangue na hora do acontecimento. Apenas ouvira o barulho seco das detonações, que pareceram a ela como fogos juninos, e o impacto do que não sabia ter sido um projétil, acertando o alvo errado. No hospital, sim: lençóis e mais lençóis de sangue, como afirma, desdobrando diante da minha imaginação uma gaze larga de algodão, interminavelmente tingida de vermelho.

Por decisão médica a bala não fora removida. Meu tio me disse que a bala devia ser velha, ela recorda. Uma .38 úmida, talvez, mal acondicionada em galpões ou armazéns escondidos, despreparados para os caprichos ambientais, e não tivera o ímpeto necessário para avançar entre carne e ossos. Dói ainda. Arde. Queima. Mas é assim mesmo, reflete paciente, sobre a cadeira vazia que nos separa.

Pacientes somos todos aqui, aguardando ser ouvidos por aquele – ou aquela – que nos prescreverá medicamentos, terapias, tratamentos e procedimentos, que assinará e carimbará uma ordem às farmácias, aos laboratórios, às clínicas, aos hospitais, a outros profissionais, a toda a longa linha de montagem destinada a realinhar nosso corpo em desmantelo. A história da moça me interessa. Encapsulados estamos nesse espaço do sem tempo. E ela não precisa estímulo.

Medo de sangue não tinha, garante. Nunca tivera. Antes de vir para a cidade grande nascera e se criara nas selvas da borda do Brasil, onde o traçado da fronteira com a Bolívia não se fazia tão explícito, onde reinavam plantas e feras, e onde a mãe saía de seringal a dentro, liderando a fileira de filhos, protegidos pelo revólver Colt à cinta. Vai que aparecia uma cobra, uma onça, um homem – nunca se sabia.

Na esterilidade de uma sala de espera, discorrer sobre selvas e tiros e balas perdidas é mais interessante que assistir os repetitivos programas de TV. Presumo que as histórias dos outros pacientes girem em torno de males prosaicos, quase caseiros. Dores. Obstruções. Pontadas. Palpitações. Incômodos. Distensões. O dia a dia de nosso humano desgaste. Ela não: está em uma hierarquia própria, acima e além das mazelas corriqueiras.

E ela me conta que enxergara o rosto do atirador, e que ele se deixara ver claramente, talvez porque não fizesse diferença um corpo a mais, um corpo a menos, naquela hora ou depois. Então, ela se inclina para mais perto de mim e cochicha o nome do homem perto de meu ouvido.

Aceno com a cabeça, como quem diz sim. Na verdade, não sei de quem se trata. Sequer escutei direito a voz dela por detrás da máscara de pano. Estou organizando meus exames pois serei a próxima a ser chamada. Mas sinto que ela precisa repartir com alguém o seu segredo, para que mais uma pessoa possa estar ciente de quem a sentenciou a uma pena perpétua.

Levanto-me e desejo boa sorte. A última imagem que me fica é a de uma mulher gestando uma ferida metálica, tendo impresso nas retinas o rosto de um homem cujo nome jamais esquecerá – e que nada representa para mim, cada corpo amuralhado em angústias e sofrimentos pessoais, abrigados apenas, e tão brevemente, pelas paredes passageiras de mais uma sala de espera.

 

Angela Barros Leal é jornalista e escritora