Em entrevista a Reinaldo Azevedo, Lula mostra o quanto será osso duro de roer em 2022

O petista é um "remake" do Lula de 2002. Aquele que assinou a carta Carta ao Povo Brasileiro, documento que o aproximou do centro e até da centro-direita, distanciando-se do extremo que marcava a esquerda.


Por Fábio Campos
fabiocampos@focus.jor.br

A entrevista do ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva ao jornalista Reinaldo Azevedo, na Bandnews, mostrou quanto o petista vai ser osso duro e roer na disputa presidencial de 2022 (veja aqui). Um duro crítico das gestões petistas, Azevedo não deixou de colocar questões relevantes e, muitas vezes, delicadas. No entanto, em suas respostas, Lula mostrou o quanto está politicamente afiado.

Com pleno domínio das circunstâncias que cercam uma entrevista, Lula expressou seus pontos de vista com a clareza que interessa aos eleitores. Sempre muito calmo e ponderado, o petista foi duro com Jair Bolsonaro, bateu forte no ministro Paulo Guedes, defendeu a ideia de um estado capaz de intervir da economia e falou de política com a desenvoltura que lhe é peculiar.

Ficou claro que se trata de um “remake” do Lula de 2002. Aquele que assinou a carta Carta ao Povo Brasileiro, um documento que o aproximou do centro político e até da centro-direita, distanciando-se do extremo que marcava o comportamento da esquerda até então. Um Lula bem diferente do que foi reeleito em 2006. E bem mais diferente ainda do Lula de antes de sua prisão ser decretada.

A nova forte guinada de Lula para o centro diminui os espaços de cada um dos políticos que se coloca como presidenciável e que acabou de assinar um manifesto pela democracia. Entre eles, Ciro Gomes, que embora seja muito experiente, ainda não aprendeu a domar a sua forma de falar. Ciro parece não ter entendido o quanto esse componente afeta a sua trajetória.

Claro que, a depender do ponto de vista do analista, há muito o que se elogiar e o que se criticar nas respostas de Lula. O petista, por exemplo, não se sai muito bem quando se vê provocado diante dos casos de corrupção que marcaram os governos do partido e que, ao fim das contas, foram expostos à exaustão pela Lava Jato.

Na entrevista, por exemplo, Lula responsabilizou Eduardo Cunha, então presidente da Câmara dos Deputados, pela derrocada da gestão de Dilma Rousseff e posterior impeachment da presidente. No entanto, Cunha está hoje condenado e preso acusado que foi por ter, em 2007, interferido em negócios da Petrobras na África. Na época, Lula era o presidente da República e Cunha um deputado do médio clero que tinha forte interlocução com o Palácio do Planalto.

Vale a pena assistir a entrevista. Através dela, consegue-se antecipar o formato do debate que vai se dar em 2022 (esperamos que não ocorram novas facadas que invibilizem os confrontos políticos). Afinal, com seus processos anulados, Lula se recolocou no jogo e detém, sem precisar fazer nenhum movimento, um terço do eleitorado brasileiro.

Fábio Campos

Jornalista graduado pela Universidade Federal do Ceará (UFC), foi repórter de política e articulista do O Povo, o mais tradicional veículo de jornalismo impresso do Ceará, onde editou a Coluna Política por 14 anos (1996-2010) e a Coluna Fábio Campos por sete anos (2010-2017). Também foi editorialista do mesmo veículo entre 2013 e 2017. Concomitantemente às funções no jornal, editou o Anuário do Ceará por 15 anos, modernizando o conteúdo e o projeto gráfico da prestigiada publicação. Apresentou o programa Jogo Político na TV O Povo por 12 anos, ancorou o programa Contraponto na TV Cidade (Record), foi comentarista de política na TV Jangadeiro (SBT) e na rádio O Povo/CBN. Em agosto de 2017 iniciou a startup Focus.jor.