Eleições Legislativas Europeias: espectros distantes, resultados semelhantes, por Igor Macedo de Lucena


Articulista do Focus, Igor Macedo de Lucena é economista e empresário. Professor do curso de Ciências Econômicas da UniFanor Wyden; Fellow Associate of the Chatham House – the Royal Institute of International Affairs  e Membre Associé du IFRI – Institut Français des Relations Internationales.

No mês de setembro e agora no começo de outubro duas das principais democracias parlamentaristas da Europa renovam seus representantes e consequentemente seus primeiros-ministros. Nações com históricos parecidos, que hoje apresentam governos de lados opostos, contudo com excelente resultados.

A Áustria teve eleições no dia 29 de setembro após o chamado “escândalo de Ibiza” quando o ex-líder do partido de apoio FPÖ, Heinz Christian Strache, apareceu oferecendo favores políticos a uma suposta oligarca russa em troca de financiamento ilegal ao seu partido.

O escândalo derrubou o premiê Sebastian Kurz, mais jovem líder europeu, com apenas 33 anos de idade e uma estrela em ascensão do partido de centro-direita ÖVP (Österreichische Volkspartei) desde 2017. Pelo resultado de sua reeleição com 31,5% os eleitores não responsabilizaram Kurz pessoalmente, abrindo caminho para uma nova coalizão de direita que busca manter políticas liberais na Áustria.

Crescendo acima de 2% ao ano e com cerca de 8,8 milhões de habitantes, o país apresenta um baixo índice de desemprego, com cerca de 4,7%, e possui um alto PIB per capita, cerca de 47 mil dólares. Diferente da maioria dos países europeus, a inflação austríaca é positiva e estável em cerca de 2,2%, mostrando um importante dinamismo econômico em uma nação que faz fronteira com o leste europeu e tem na Alemanha seu maior parceiro comercial. As políticas da centro-esquerda tanto do ponto de vista econômico quanto político e social trouxeram avanços para uma nação que outrora fora o centro do antigo Império Austro-Húngaro.

Ao mesmo tempo ocorre no dia 6 de outubro as eleições legislativas de Portugal, onde o premiê António Costa, do Partido Socialista de centro-esquerda, concorre a reeleição, com grandes chances de vencer. No poder desde 2015, Costa passou pela Troika do FMI e foi um dos responsáveis por retirar Portugal da maior crise econômica da Zona do Euro com políticas ortodoxas, porém incentivando reformas e investimentos públicos.

Com apenas 10 milhões de habitantes Portugal vem crescendo também a uma taxa média de 2% ao ano e possui uma inflação estável em cerca de 1,1% ao ano. Sendo a nação mais ocidental da Europa, sua maior parceira é a Espanha e possui uma taxa de desemprego ligeiramente mais alta que a Áustria, com cerca de 6%. O PIB per capita de Portugal também é inferior, na casa dos 21 mil dólares, contudo ao contrário de outras nações europeias, elas se mostram como resilientes na volta do crescimento na integração europeia.

O que une essas duas nações além do bom período de crescimento econômico? Um passado similar. As duas nações foram Impérios de influência mundial, Portugal no século XVI e a Áustria no século XIX. As duas nações passaram por regimes totalitários, Portugal com o Salazarismo e a Áustria com o Nazismo. Mas apesar do histórico parecido, hoje os governos dessas nações são de espectros políticos bem diferentes.

O mais importante é que mesmo a Áustria se apresentando como um governo de direita e Portugal com um governo de esquerda, ambos países vem exibindo políticas públicas que estão de fato melhorando a qualidade de vida da população e desenvolvendo a economia dessas nações. O resultado prático é que seus dois principais líderes devem ser reeleitos para continuar suas políticas, ortodoxas e liberais, entretanto uma mais intervencionista do que a outra.

Em momentos de radicalismos, em que várias nações esquecem as qualidades do lado oposto, nos quais partidários de esquerda chamam os direitistas de fascistas e ignorantes, em que os partidários da direita chamam os esquerdistas de comunistas e ladrões, os exemplos dessa duas nações devem nos trazer uma reflexão: quando há democracia, liberalismo e respeito pelo pensamento oposto, tanto governos de direita quanto de esquerda podem ser responsáveis e trazerem prosperidade para suas nações.