“El libro negro de la nueva izquierda – ideologia de género o subversión cultural”, por Catarina Rochamonte


Catarina Rochamonte é graduada em Filosofia pela UECE, Mestre em Filosofia pela UFRN e Doutora em Filosofia pela Universidade Federal de São Carlos (Ufscar).

Resenha da obra “El libro negro de la nueva izquierda – ideologia de género o subversión cultural”, de Nicolás Márquez e Augustín Laje.

Primeira parte –  Do feminismo radical à ideologia de gênero.

O sentimento de urgência, ao tratar de determinados temas, deve-se à precariedade de estudos atuais em sentido contrário àquele que se impõe diariamente no imaginário social. Os teóricos da contracultura, das formas subversivas, das técnicas de manipulação psicológica cujo resultado é a dissolução do sentimento moral e do pudor têm se destacado sobremaneira sem que haja número suficiente de pensadores para se lhes contrapôr. Nosso objetivo, portanto, para além da crítica ao submundo pseudofilosófico e pseudoliterário de onde emergem a visão ideológica acerca da sexualidade é contribuir, por mínimo que seja, para o resgate, ainda que tardio, da sobriedade e do pudor diante dessa dimensão profundamente complexa da nossa humanidade, impondo, pela denúncia e exposição do absurdo de algumas teses, uma barreira para a politização desse tema por mentes pouco afeitas à busca da verdade.

Os intelectuais cuja obra tenta normalizar uma perturbação de cunho sexual conseguem apenas traduzir em forma de conceitos manipuláveis ao bel prazer de sua inteligência a sua própria perturbação psíquica que, teoricamente projetada em forma de ideias, ganha ares de grandiosidade e  aderência das massas obnubiladas pelo inferno das pulsões doentias. O melhor instrumento de que ainda dispomos nesse combate – além da capacidade crítica e do bom senso –  é nosso senso de moralidade que grita contra a perversão insidiosa que se disfarça em forma de teses, dissertações, obras vulgares ou manifestações bizarras de jovens que se retroalimentam dessa falsa cultura que em todos os lugares dá guarida àquilo que atenta contra o que é espiritual, belo e sublime; contra tudo aquilo que é ainda capaz de elevar a alma, emudecer pelo deslumbramento e fazer vibrar a fé em algo maior que a propensão natural ao que é vil e degradante.

Dentro desse contexto de respeito ao que é sagrado e de sentimento de combate ao que insiste em profanar tudo o que é divino e degradar tudo o que é humano, pareceu-nos imprescindível a tarefa de apresentar um livro cuja difusão deveria ser tarefa da hora para todos aqueles que se sentem atingidos pelo radicalismo e pela perversidade das doutrinas e visões de mundo que a esquerda teima em querer nos impor.

O comunismo não morreu com a caída formal de seus estados, asseveram os autores da obra que começamos agora a expôr em forma de resumo, “El Libro Negro de la Nueva Izquierda – Ideología de género o subversión cultural”. Trocando o discurso classista por aforismos igualitários, ele apenas “deixa de recrutar operários explorados para capturar almas atormentadas ou marginalizadas a fim de programá-las e lançá-las em conflito sob pretextos de aparência nobre[1]”. No momento em que os que eram contra o comunismo sentenciavam triunfantes e ingenuamente o seu fim, a doutrina malsã se espalhava onde poderia ter maior potencial de destruição a longo prazo: nas salas de aula, nas cátedras, na literatura, nas artes, no jornalismo e no imaginário social como um todo. Essa hegemonia, claro, não surgiu de uma hora para outra e é analisando a evolução desse conceito no decorrer das formulações e reformulações do marxismo que começaremos a entender a estratégia atual que combatemos.

Na teoria marxista convencional, a consciência estaria subordinada ao conjunto das relações de produção que formam a estrutura econômica da sociedade. O que está na base (a estrutura econômica) condicionaria o que está acima (a superestrutura jurídica e política à qual correspondem determinadas formas de consciência social), enquanto o indivíduo é conformado a uma lógica determinista na qual o social prevalece e o condiciona, impondo-lhe as formas da ideologia compatíveis com a classe a qual pertence.

O próprio Marx considera essa sua interpretação como o resultado que, uma vez obtido, serviu-lhe de fio condutor nos estudos e resume-a na clássica e não menos equivocada sentença: “Não é a consciência do homem que determina o seu ser, mas, pelo contrário, o seu ser social é que determina a sua consciência[2].”Nessa análise topográfica em que a sociedade é interpretada como uma espécie de edifício cuja base são as relações de produção, a demolição do prédio só pode se dar com a destruição dos seus pilares de apoio, portanto, a luta no nível cultural, ideológico, jurídico e político é considerada inócua e a revolução só pode se dar pela supressão da propriedade privada e pela tomada de poder por parte do proletariado, que é a classe revolucionária por excelência.

Ocorre que na Rússia pré-revolucionária, o desenvolvimento econômico era tão atrasado que a burguesia ainda não tinha cumprido o seu suposto papel histórico de fazer a revolução contra o feudalismo czarista. Diante desse fato, era preciso uma justificativa para que, contrariando os postulados e as profecias de Marx, o proletariado assumisse uma tarefa diferente daquela à qual estava predestinado enquanto classe. É assim que, por ocasião da Segunda Internacional Socialista, elabora-se o conceito de hegemonia, a fim de justificar o fato de que, na Rússia, a classe proletária assumiria a tarefa burguesa de sepultar a sociedade feudal.

As classes sociais continuavam sendo concebidas como dotadas de tarefas históricas específicas, mas o termo hegemonia começa a ser utilizado para dar conta de uma excepcionalidade que extrapola um quadro determinista maior. Na Terceira Internacional Socialista, Lênin reajusta esse conceito, passando a concebê-lo sob a óptica da necessidade de uma direção política no seio de uma aliança de classes, como a que deveria ocorrer entre o campesinato e a classe proletária em benefício da revolução.

Posteriormente, com a obra de Antonio Gramsci, estabelece-se o vínculo entre cultura e hegemonia, superando o economicismo anterior que a noção continha. Para o pensador italiano, a hegemonia se realiza com mudanças no nível cultural O conceito não se resume mais a uma aliança política como apregoara Lênin nem à assunção de tarefas externas à própria classe, como queria Plejanov, mas abrange um projeto de transmutação de valores, identidades e cultura.

A hegemonia se dá pela introjeção no outro de uma mesma visão de mundo em torno da qual cria-se uma solidariedade orgânica entre grupos de classes sociais distintas. A formação política hegemônica dar-se-ia, dali em diante, pelo vínculo ideológico em uma mesma consciência revolucionária contra o inimigo comum. Se, para Lênin, a revolução havia de ser violenta e implicava tomar à força o Estado, para Gramsci, o Estado poderia ser permeado a partir da sociedade civil e sua destruição seria o mero resultado da destruição da concepção de mundo que o produz e reproduz. A revolução seria lenta, gradual e passiva, em um processo no meio do qual as classes dominantes absorveriam quase inconscientemente os pontos de vista das vontades coletivas.

Outro importante salto na teoria marxista foi dado pelos argentinos Ernesto Laclau e Chantal Mouffe, cuja originalidade em relação às revisões anteriores do marxismo é a supressão do conceito de classe social como elemento teórico relevante. Não há mais um sujeito revolucionário privilegiado e específico como o era o proletariado, mas novos sujeitos forjados para a revolução por meio da construção de discursos ideológicos que serão devidamente manipulados, potencializando os conflitos sociais em benefício do projeto de poder hegemônico da nova esquerda. Hegemonia passa a ser a articulação das forças conflitivas diversas e dispersas, por meio de um discurso homogêneo instituído pela esquerda e que, radicalizando o componente igualitário da democracia, acabará distanciando-a de seus princípios liberais, destruindo-a por dentro. A  radicalização da democracia almejada pelos progressistas não é outra coisa que socialismo.

O falecido  Hugo Chavez, já dissera, em 2005, no programa televisivo “alô presidente”, que o socialismo não havia morrido com o fim da União Soviética, precisando apenas se reinventar de acordo com as condições do novo século. É nesse contexto que nasce a expressão “Socialismo do século XXI” como alcunha latino-americana para o projeto totalitário da nova esquerda. Hoje sabemos que, na América Latina, não apenas os movimentos sociais minoritários foram cooptados, mas também o crime organizado, o narcotráfico e o terrorismo foram instrumentalizados pelo projeto de poder da esquerda; afinal, tudo o que tenha caráter subversivo pode ser utilizado pela ideologia que quer fazer emergir uma nova ordem a partir do caos.

Vê-se, pois, quão importante é para a reconfiguração da nova esquerda o abandono da visão economicista e estritamente classista e o reconhecimento de que não há apenas um, mas vários sujeitos revolucionários em potencial, sendo a estratégia principal justamente cooptar e instrumentalizar todos os microconflitos por meio de uma narrativa que os unifique contra o inimigo comum, que será a ordem espontânea capitalista e os valores ocidentais que a sustentam.  Os movimentos que o socialismo do século XXI deve hegemonizar são, dentre outros, o indigenista, o ecologista, o direito-humanista, mas, principalmente, o movimento feminista e homossexualista, que convergem e se transmutam – prestando-se mútuo apoio – no que se conhece hoje como ideologia de gênero.

Se em sua primeira etapa (ou “primeira onda”) o movimento feminista foi importante e necessário por reivindicar igualdade de direitos jurídicos entre mulheres e homens (o que nada mais é do que a luta por isonomia, que é um princípio liberal), seu desdobramento deu-se por caminhos tortuosos que fizeram desse movimento a antessala das mais aberrantes teorias. O economista  Ludwig von Mises não se enganou ao caracterizar o feminismo, nas suas ondas subsequentes, como um “filho espiritual do socialismo.” Segundo o economista austríaco, ao crer que “deve combater instituições da vida social com a esperança de remover, por este meio, certas limitações que a natureza impôs ao destino humano[3]”, o movimento feminista assume uma característica própria do socialismo que é “buscar nas instituições sociais as raízes das condições dadas pela natureza e pretender, ao reformá-las, reformar a própria natureza.[4]

As utopias socialistas de Saint-Simon e Fourier, além de arremeterem contra a propriedade privada também pleiteiam a desaparição do matrimônio como instituição social. O “socialismo científico”, de Engels, por sua vez, vincula a aparição da propriedade privada ao fim de um idílico paraíso comunista matriarcal e começo do regime masculino opressor. Para Engels, conforme sua obra  “A origem da família, da propriedade e do Estado”, a propriedade seria causa não apenas da exploração das classes, mas também da exploração feminina. Sobre essa base teórica, que estabelece a mesma origem para a luta de sexos e a luta de classes, dá-se a operação hegemônica que instrumentaliza o feminismo e põe as mulheres em uma paradoxal militância contra a ordem de mercado das democracias liberais na qual sua liberdade pôde efetivamente florescer.

Se o feminismo na sua primeira onda, sufragista, pode ser caracterizado como ilustrado ou liberal e na sua segunda onda pode ser caracterizado como marxista no sentido mais tradicional, na terceira onda, o feminismo – tendo herdado as revisões do marxismo às quais já nos referimos – pode ser adjetivado de culturalista, neo-marxista ou simplesmente feminismo radical. Esse será o feminismo responsável pela germinação da ideologia de gênero.

Para autoras como Mary Inman (Em defesa da mulher – 1940) ou Betty Friedan (A mística da feminilidade – 1963), a liberação da mulher não teria sido lograda com as vitórias no terreno dos direitos civis e políticos. Havia ainda aspectos culturais e regras informais – como o desejo de ser esposa, mãe, ou cultuar a beleza e a pureza – cuja associação ao universo feminino seria causa de opressão e alienação das mulheres. O nome mais importante dessa fase do feminismo é Simone de Beauvoir (O segundo sexo – 1949), para quem o conceito “mulher” seria carente de essência, artificial, sempre definido pelo seu opressor: o homem e, portanto, socialmente construído. “Não se nasce mulher; torna-se mulher”, afirma a companheira do filósofo existencialista Jean-Paul Sartre.

A distinção que Beauvoir estabelece entre sexo (dado natural) e gênero (construção social), negando relevância à determinação que o primeiro impõe sobre o segundo é, sem dúvida, prelúdio da visão de mundo radical e absurda que se convencionou chamar de ideologia de gênero, segundo a qual o dado natural pode ser ignorado e negado em favor do sentimento, do desejo, da vontade do homem que quer se construir socialmente como mulher ou vice-versa, a despeito das determinações que a biologia lhes impõe.

Embora não se possa culpar a escritora pelo uso posterior que se fez da sua famosa frase, convém notar que ao existencialismo ateu – pano de fundo filosófico de toda sua obra – é inerente esse risco de abolir qualquer consciência de determinação natural do ser humano. Afinal, como diria Sartre, “o homem nada mais é do que aquilo que faz de si mesmo”. Se ele quer fazer de si mesmo uma mulher, nada poderia impedi-lo…

Como não há limites nem para o delírio nem para a perversão fantasiada de teoria, Shulamith Firestone  (A Dialética do Sexo, 1970) escreverá um programa mínimo para a revolução feminista cujos pontos são: 1) legalização do aborto; 2) abandono da economia capitalista e adoção do socialismo; 3) destruição das distinções culturais entre homem/mulher e adulto/criança; 4) libertação de todas as mulheres e crianças para fazerem o que desejarem sexualmente.

Firestone legitima, portanto, a pedofilia e nisso não está sozinha. Kate Millet já havia escrito que as crianças deveriam “expressar-se a si mesmo sexualmente, provavelmente entre elas de início, porém também com adultos”. A própria Simone Beauvoir assinou, no diário Le Monde de 26 de Janeiro de 1977, juntamente com Sartre e Michel Foucault, uma solicitação em favor da liberdade de três homens presos por pedofilia. O ativismo pedófilo desses que ainda são, infelizmente, incensados e estudados nas faculdades como grandes filósofos teve tanta repercussão que culminou na fundação do FLIP (Front de Libération des Pédophiles).

À pedofilia as feministas somaram a reivindicação do incesto e, dos anos 70 em diante, o feminismo radical trará sempre, algumas vezes implícita, outras vezes explicitamente estas horripilantes reivindicações dentro de seu programa. Todas essas transgressões aberrantes são estratégias que buscam modificar as formas de vida para modificar as estruturas do sistema político e econômico. A histeria em torno das questões de gênero, a insistência da militância em modificar a própria linguagem para fazer valer sua visão distorcida do mundo mostra que a ideologia de gênero é umas das estratégias mais eficazes do marxismo cultural, por isso ela será melhor apresentada na segunda parte da nossa resenha.

[1]            El Libro Negro de la Nueva Izquierda – Ideología de género o subversión cultural. p.11

[2]     Marx, Karl. Prefácio – Para a Crítica da Economia Política

[3]             Von Mises, Ludwig. Socialismo. Análisis económico y sociológico. Madrid, Unión Editorial, 2007, pp. 107108. Apud El Libro Negro de la Nueva Izquierda – Ideología de género o subversión cultural.

[4]     Idem. p.