A receita de José Macêdo: talento, disciplina e força de trabalho

Enquanto conseguia, Jose Dias de Macêdo manteve a rotina de ir todos os dias ao escritório


Por Fábio Campos
fabiocampos@focus.jor.br

O jornalismo me deu a oportunidade de umas duas ou três conversas com José Dias de Macêdo. A melhor delas foi numa viagem ao Rio de Janeiro para uma homenagem da FIEC ao economista Celso Furtado, numa justa e sábia ação de Jorge Parente à frete da entidade. Era 21 de novembro de 2001. Os problemas na saúde de Furtado fizeram com que a entidade fosse ao Rio entregar a medalha do Mérito Industrial ao economista que pensou e construiu o modelo de desenvolvimento para o Nordeste que até hoje é referência. Na delegação, um grupo de empresários. Entre eles, José Macêdo com 82 anos, firmezas física e mental de humilhar meus 36 anos de então.

Ainda no voo para o Rio, a conversa fluiu do prosaico ao mundo dos negócios. A melhor parte sempre é como o grupo deu seus primeiros passos. Coisa de visionários que sabiam unir um talento impar à força de trabalho e à disciplina. Adicione-se uma boa pitada de austeridade e a receita funcionou muito bem. A certa altura, Macedo me contou que gostava de vinho às refeições. “Jornalista, nunca nada acima de 50 reais”, disse-me em tom de alerta para a hora de pagar por uma garrafa de rouge.

“Jornalista, não viajo em primeira classe. É luxo desnecessário. Gosto de dar esse exemplo”. Era o exemplo que contagiava o comportamento da empresa, funcionários e filhos. Era o exemplo que a política atrasada se recusava a assimilar no serviço público. “Reduzir custos e evitar desperdícios é uma preocupação que sempre tive”. Moderno, não?

Macêdo passeou pelo mundo da política. De forma direta, em dois períodos: foi três vezes deputado federal (entre 1959 e 1971). Depois, como suplente de senador, chegou a ocupar a vaga no Senado por um breve período, entre 1986 e 1987, época em que o filho Amarílio era um dos líderes da vanguarda empresarial que ajudou a eleger Tasso Jereissati governador.

Natural de Camocim (CE), José Macêdo graduou-se em economia pela UFC ainda nos primórdios de um dos cursos superiores mais tradicionais do Ceará. No alvorecer da Segunda Guerra, em 1939, iniciou suas atividades empresariais ao fundar a J. Macedo S/A, de representação de alimentos e madeira.

Em 1948, o empresário associou-se aos seus irmãos Benedito e Fernando e passou a representar a marca Jeep, da norte americana Willys-Overland, com exclusividade no Ceará. O primeiro veículo veio desmontado. Macêdo ajudou a montar. “Não conseguia apenas ficar olhando o serviço”, disse-me. O rápido sucesso do negócio o tornou representante também as marcas Mercedes Benz, Ford e Toyota em estados do Nordeste. Portanto, foi uma das primeiras empresas genuinamente cearense a ultrapassar as fronteiras do Estado.

Impulsionado pela experiência comercial com os EUA, em 1952, a J.Macêdo obteve licença para importação de 80 mil sacas de farinha de trigo. Após dois anos, os irmãos decidiram abrir uma indústria para processar sua própria farinha. Nascia ali o Moinho de Trigo Fortaleza, e com ele, o principal braço de negócios do grupo. Portanto, os passos mais profissionais e modernos tanto do comércio como da indústria no Ceará passam pela longa história de vida de José Macêdo.

Atualmente, a J.Macêdo é líder nacional no mercado de farinha de trigo e misturas para bolos e vice-líder no de massas.

Enquanto conseguia, Jose Dias de Macêdo manteve a rotina de ir todos os dias ao escritório de trabalho. Nos últimos anos, suas condições físicas diminuíram-lhe a mobilidade.

Foi casado com Maria Proença de Macêdo com quem teve oito filhos, que deram 28 netos e 24 bisnetos.

Roberto, Amarílio e Georgina estão à frente do grupo.

 

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