Derrubar uma árvore não pode, mas metade da cidade sem esgoto é tolerada

Não se trata de criticar quem se mobiliza pela defesa de arbustos e gatinhos abandonados, mas sim a incapacidade de fazer o mesmo a favor de uma emergência já resolvida pelo mundo civilizado há dezenas de anos. 


Rua Madre Tereza de Calcutá, no bairro Cajazeiras, em Fortaleza. Alguém perguntou pelo esgoto? A via ficou marcada pelo assassinato de 14 pessoas em janeiro de 2018.

Por Fábio Campos
fabiocampos@focus.jor.br

É inegável que a defesa do meio ambiente é uma demanda social e econômica de relevância. Idem, a defesa de animais. Cada vez mais, haverá pressões internas e externas sobre os governantes quanto a esses propósitos. Porém, algumas ponderações são necessárias.

Levas se mobilizam raivosamente contra a derrubada de árvores para a realização de obras urbanas ou a ampliação de áreas para a agricultura. Lembrem-se da grande mobilização em Fortaleza para impedir as obras viárias no encontro da Antônio Sales com Santana Júnior. Tudo por que um ínfimo pedaço do Cocó iria ser ocupado pelas obras. Tente empreender em trechos mesmo fora do Cocó, mas nas imediações do mesmo, e será massacrado virtualmente. Retirar uma árvore de um canteiro central é um deus nos acuda.

Atentem para o panelaço internacional em relação à Amazônia. Países que foram responsáveis por desastres ecológicos de grande envergadura, se mostram agora vestais na acusação ao Brasil. Muito bem disse a respeito o ex-comandante do Exército, Eduardo Villas Bôas: “É curioso que países como a Noruega se considerem com autoridade moral de apontar o dedo para o Brasil. A Noruega está entre os três países do mundo que pescam baleia. É o único país do mundo que explora petróleo dentro do Círculo Polar Ártico. É dona de 30% daquela empresa que provocou criminosamente o derramamento de metais pesados no Pará”.

Pois é. No entanto, vivemos numa civilização ocidental, abaixo da linha do Equador, que tem uma imensa economia, mas não consegue resolver uma pauta do século 19. Falo do saneamento. Estima-se que 100 milhões de pessoas no Brasil não têm acesso ao esgoto. Em Fortaleza, a quarta ou quinta cidade do País em população, tem metade de suas residências sem esgotos.

Vejam um caso em especial: os dois lados da vistosa, movimentada e rica avenida Washington Soares não tem sistema de esgotamento sanitário. Isso mesmo: shopping centers, Fórum de Justiça, o Centro de Eventos, prédios comerciais modernos, faculdades, um comércio frenético e milhares de residências. Se é assim com uma parte rica da cidade, imaginem com as mais pobres.

Alguém se indigna com isso? É um dos maiores sinais de que a nossa sociedade perdeu a noção de civilidade e inverte valores. Que fique claro: o objetivo da ponderação não é criticar quem se mobiliza pela defesa de arbustos e gatinhos abandonados, mas sim a incapacidade de fazer o mesmo a favor de uma emergência já resolvida pelo mundo civilizado há dezenas de anos.