Crônica com H. Por Angela Barros Leal

A letra H com certeza possui, em seu passado etimológico, justificativas sólidas de seu surgimento e uso, uma genealogia digna que desconheço, e sem a qual prosseguirei vivendo os anos que me restam.


Interessante, esse nosso H mudo. Sou sensível a detalhes das palavras, uma sensibilidade leiga, de ouvido, nada acadêmica. A letra H com certeza possui, em seu passado etimológico, justificativas sólidas de seu surgimento e uso, uma genealogia digna que desconheço, e sem a qual prosseguirei vivendo os anos que me restam.

A propósito do H escreveu o simbolista Hermes Fontes, no denso poema “Superstição”, como conta o mestre Sânzio de Azevedo, dono de poderosa memória: “As duas iniciais do meu nome/ têm um símbolo bom, junto a símbolo hediondo,/ um destino de herói e um de vilão./ Há no H uma escada, um degrau de subida,/ uma vaga noção de arquitetura interrompida.” A inicial F, em tão deprimente poema seria, claro, a forca…

Se o H não se deixa perceber no que é enunciado, a diferença então se concentra no que está escrito, na aparência, no layout mesmo da palavra. Veja-se, por exemplo, o nome Haroldo. E Aroldo. A meus olhos, o primeiro concentra seriedade. Método. Rigidez e tradição. É um nome, digamos, que nasceu de cabelos brancos. Já Aroldo aparenta ser ousado, aberto a novidades, livre e independente da escora do H.

Uma Helena não se assemelha jamais a uma Elena. Se aquela ocupa seu tempo zelando por parentes enfermos, ou envolvida em enredos de novelas, ou meditando sobre causas sublimes, uma Elena nasceu para ter seu nome gritado do alto de um penhasco grego, de onde encara um horizonte de nuvens revoltas, o rosto batido pelo vento, pronta para conquistar o universo, ou a ser por ele conquistada.

Hino, também por exemplo, jamais seria o mesmo sem o H. Não consigo visualizar patriotismo algum em um Ino, nem torcida desportiva entoando seus bordões, muito menos um coral de Igreja louvando a divindade, estando ausente o suporte inicial. Ino encolhe, reduz, faz-se pequenino. Assim como um homem com H – tanto na interpretação do autor, o paraibano Antônio Barros, como no contralto de Ney Matogrosso – é muito mais homem do que seria um mero omem.

Por outro lado, acrescentar um H onde ele não deveria ser posto causa efeito dissonante a meus olhos frequentemente sinestésicos. O nome Igor, que remete ao troar de botas cossacas e ao rangido de trenós voando sobre a neve vitrificada, ao ganhar um H parece perder seu rumo, esquecer seus passos, resultando em um Higor que se move apátrida, entre seu berço de origem e o Novo Mundo.

O mesmo acontece com o hebraico Eloá. Tanto o significado original (D*us), quanto o sentido dado por meus olhos (nome de uma mulher que usa óculos, que guarda receitas culinárias em uma pasta especial no computador, e que usa saltos grossos para não perder o equilíbrio) se modificam quando se tem uma Heloá (brincalhona, cabelo com mechas em três cores, chamada Loló pelos muitos amigos).

Veja-se ainda o caso de Eliane, jovem de olhos chuvosos e voz engaiolada na garganta, fã de um banquinho e um violão, tendo o amarelo como cor preferida. Pressinto que seja capaz de se transformar em uma deusa de mil braços se ao nome dela acrescentarmos a letra H inicial. Nunca é a mesma coisa.

Há outras peculiaridades no H. Se leio , embora se trate de uma letra muda consigo discernir elementos ligados ao que se passou: relógios de pulso, de parede, carrilhões com os pêndulos regendo badaladas, ampulhetas filtrando macio as lendárias areias do tempo, o tique-taque dos segundos, minutos e horas escorrendo como em um quadro surreal de Salvador Dalí.

Se o que leio é um simples a, o que me vem ao encontro são setas indicativas de destinos, o sinal da distância que nos aproxima, ou que nos aparta, no tempo ou no espaço. Terra a vista. Daqui a 100 metros. De Fortaleza a Paris. De hoje a amanhã. O futuro próximo.

Deve andar humilhada, essa letra, muda assim de tristeza desde as primeiras décadas do século XX, quando seres superiores decidiram removê-la de uma infinidade de palavras. Foi descartada da farmácia. Eliminada da filosofia. Apagada da fotografia. Excluída de proibido (“prohibido”). Foi extirpada de Adolpho. De Aphonso. De Ophélia. Quase banida da própria ortografia. E depreciada até mesmo aqui, onde falo dela, em texto que muito ganharia caso o título fosse escrito como se fazia antes, resgatando a ressonância de priscas eras (ou heras?).

E por estar chegando a hora H, dou ponto final a essa crônica. Ou chrônica.

 

Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus.jor.