Coronavírus e Poder Global, por Igor Macedo de Lucena


Articulista do Focus, Igor Macedo de Lucena é economista e empresário. Professor do curso de Ciências Econômicas da UniFanor Wyden; Fellow Associate of the Chatham House – the Royal Institute of International Affairs  e Membre Associé du IFRI – Institut Français des Relations Internationales.

O status dos Estados Unidos como líder global nas últimas sete décadas foi construído não apenas em riqueza e poder, mas também, e igualmente importante, na legitimidade que existe na governança doméstica dos Estados Unidos, no fornecimento de bens públicos globais e na capacidade e na vontade de reunir e coordenar uma resposta global às crises. A pandemia do coronavírus está testando todos os três elementos da liderança norte americana.

À medida que Washington se volta para dentro, abandonando seu papel de líder global, Pequim se move rápido e habilmente para aproveitar a abertura criada pela nova política dos EUA, preenchendo o vácuo e se posicionando como líder global em resposta à pandemia. Os chineses estão trabalhando para promover seu próprio sistema, fornecer assistência material a outros países e até organizar outros governos. Pequim entende que se for visto como líder nesta crise, e Washington for incapaz ou não querer fazê-lo, essa percepção poderá alterar fundamentalmente a posição dos Estados Unidos na política global e na disputa pela liderança no século XXI.

Xi entende que o fornecimento de bens globais pode ampliar as credenciais de liderança de uma potência mundial. Ele passou os últimos anos pressionando o aparato de política externa da China a pensar mais sobre liderar reformas, no chamado sistema de “governança global”, e o coronavírus ofereceu uma oportunidade de colocar essa teoria em ação. Considere as exibições cada vez mais divulgadas da China de assistência material, incluindo máscaras, respiradores, ventiladores e medicamentos. No início da crise, a China comprou e produziu (e recebeu como ajuda) grandes quantidades desses bens. Agora está em posição de entregá-los a outras nações.

Quando poucos Estados europeus responderam ao apelo urgente da Itália por equipamentos médicos e equipamentos de proteção, a China se comprometeu publicamente a enviar mil ventiladores, dois milhões de máscaras, cem mil respiradores, centenas de roupas de proteção e milhares de kits de teste. A China também enviou equipes médicas e 250.000 máscaras para o Irã e suprimentos para a Sérvia. O co-fundador da Alibaba, Jack Ma, prometeu doar grandes quantidades de kits de teste e máscaras para os Estados Unidos, além de vinte mil kits de teste e cem mil máscaras para cada um dos países da África.

A vantagem de Pequim em assistência material é aprimorada pelo simples fato de que muitos dos itens que o mundo precisa para combater o coronavírus é fabricado na China. Já era o maior produtor de máscaras cirúrgicas; agora, por meio da mobilização industrial do tipo guerra, aumentou mais de dez vezes a produção de máscaras, dando-lhe a capacidade de fornecê-las ao mundo inteiro.  Enquanto isso, os antibióticos são críticos para tratar infecções secundárias emergentes do COVID-19, e a China em conjunto com a Índia produzem a grande maioria dos ingredientes farmacêuticos necessários para produzi-los.

Os Estados Unidos, por outro lado, carecem de oferta e capacidade para atender muitas de suas próprias demandas, e muito menos para fornecer ajuda em zonas de crise em outros países. Acredita-se que o Estoque Nacional Estratégico dos EUA, reserva de suprimentos médicos críticos do país, possua apenas um por cento das máscaras e respiradores e pouco mais de dez por cento dos ventiladores necessários para lidar com a pandemia. O restante deverá ser compensado pelas importações da China ou pelo aumento da produção doméstica. Da mesma forma, a participação da China no mercado de antibióticos dos EUA é superior a 95% e a maioria dos ingredientes não pode ser fabricada no mercado interno. Embora Washington tenha oferecido assistência à China e a outros países no início da crise, agora é menos capaz de fazê-lo, à medida que suas próprias necessidades crescem. Pequim, por outro lado, está oferecendo ajuda precisamente quando a necessidade global é maior.

A resposta à crise, no entanto, não é apenas sobre bens materiais. Durante a crise do ebola de 2014-15, os Estados Unidos se reuniram e lideraram uma coalizão de dezenas de países para combater a propagação da doença. Até agora, o governo Trump evitou um esforço de liderança semelhante para responder ao coronavírus. Washington parece, por exemplo, não ter avisado previamente seus aliados europeus antes de instituir uma proibição de viajar da Europa, o que mostra uma falta de coordenação com seus mais importantes aliados.

A China, por outro lado, empreendeu uma campanha diplomática robusta para reunir dezenas de países e centenas de funcionários, geralmente por videoconferência, para compartilhar informações sobre a pandemia e lições da própria experiência da China na luta contra a doença.  Praticamente todas as matérias na primeira página de seus órgãos de propaganda voltados para o exterior anunciam os esforços da China para ajudar diferentes países com bens e informações, enquanto enfatizam a superioridade da abordagem de Pequim.

O principal ativo da China na busca pela liderança global diante do coronavírus é a abertura deixada pelos Estados Unidos no cenário internacional e o seu foco quase que exclusivo para a política interna. O sucesso final da busca da China, portanto, dependerá tanto do que acontece em Washington quanto do que acontece em Pequim. Na crise atual, Washington ainda pode mudar sua posição e provar ser capaz de fazer o que se espera de uma nação líder que é administrar o problema em casa, fornecer bens públicos globais e coordenar uma resposta global.

Mesmo concentrando-se nos esforços internos, Washington não pode simplesmente ignorar a necessidade de uma resposta global coordenada. Somente uma liderança forte pode resolver problemas de coordenação global relacionados a restrições de viagens, compartilhamento de informações e fluxo de mercadorias críticas. Os Estados Unidos forneceram essa liderança com sucesso por décadas e devem fazê-lo novamente.

Essa liderança também exigirá uma cooperação efetiva com a China, em vez de ser consumida por uma guerra de narrativas sobre quem respondeu melhor. Pouco se ganha enfatizando repetidamente as origens do coronavírus, que já são amplamente conhecidos apesar da propaganda da China, ou realizando trocas retóricas com Pequim.

A maioria dos países que lidam com o desafio prefere ver uma mensagem pública que enfatize a seriedade de um desafio global compartilhado e possíveis caminhos a seguir. Há muito o que Washington e Pequim poderiam fazer juntos para o benefício do mundo: coordenar pesquisas de vacinas e ensaios clínicos, além de estímulos fiscais, partilhando informações, cooperando na mobilização industrial e oferecendo assistência conjunta a outras nações. Tal passo não deve ser visto como uma concessão ao poder geopolítico chinês, que de uma maneira ou de outra, sairá fortalecido por suas próprias ações. Em vez disso, ajudaria a restaurar a confiança na liderança dos Estados Unidos.