Como se faz um sábio. Por Angela Barros Leal


No final do século XIX, a Holanda fez transportar para sua colônia da Guiana, hoje Suriname, milhares de indonésios, javaneses endividados ou dispostos a tentar vida nova a 18 mil km de casa. Fixaram-se na fronteira com o Brasil, na região amazônica ensanduichada entre a Guiana Inglesa e a Guiana Francesa. Atualmente, mais de 70 mil surinameses, de uma população por volta dos 600 mil habitantes, descendem desses primeiros imigrantes javaneses, compondo o terceiro maior grupo populacional de um país cuja posição geográfica pertence à América do Sul, mas que é culturalmente considerado caribenho, sendo inclusive um dos quinze membros do CARICOM, a Comunidade do Caribe.

Tanto o holandês quanto o javanês foram mantidos como línguas oficiais, esta última com vários dialetos regionais. É o idioma falado por mais de 68 milhões de pessoas. Pertence a uma família de línguas empregadas na vasta área que vai da Ilha de Madagascar até a península e arquipélago da Malásia, incluindo Havaí, Ilha da Páscoa e praticamente todas as linguagens nativas das Ilhas do Pacífico, excetuando Austrália e Papua Nova Guiné.

No Brasil, o nome Java se fez familiar graças a um conto de Lima Barreto, publicado em 1911 com o título “O homem que falava javanês”. Retornemos àquela época, e ao dito conto. A trama gira em torno da ascensão social de Castelo, uma surpresa para o amigo Castro, a quem reencontra e com quem dialoga em uma confeitaria no Rio de Janeiro.

Tempos atrás, prestes a ser posto para fora da pensão onde morava, por falhas constantes no pagamento do aluguel, vira-se Castelo impelido a responder anúncio solicitando um professor de javanês, língua que desconhecia. A necessidade alimentou sua audácia e o primeiro passo o levou à Biblioteca Nacional. Em consulta à Encyclopédie Française obteve um conhecimento mínimo sobre o assunto, o suficiente para dar inicio a mais uma aventura.

“Sabes bem que até hoje nada sei de javanês”, não esconde do amigo, “mas compus umas histórias bem tolas e impingi-as ao velhote. Como ele ouvia aquelas bobagens! Ficava extático, como se estivesse a ouvir palavras de um anjo. E eu crescia aos seus olhos!” Confiando em sua já comprovada capacidade de burlar o próximo, Castelo conquistara o trabalho no qual aluno e mestre igualavam-se na ignorância.

Uma raridade, alguém que falava javanês. Um espanto. Uma honra estar próximo a um conhecedor desse idioma, usado como sinônimo de algo incompreensível. E assim Castelo impressionara positivamente o bem-relacionado genro do patrão. Usando um tanto de conhecimento real, pois sabia francês, inglês, e possuía diploma (que chegara certa vez a ocultar para abrir “um escritório de feiticeiro e adivinho”), e outro tanto de pura malandragem, temperada com uma mancheia de sorte, Castelo alcançara elevado cargo público e ganhara o mundo em postos importantes.

Nas palavras dele, em seu retorno ao Rio de Janeiro, “passei a ser uma glória nacional e, ao saltar no cais Pharoux, recebi uma ovação de todas as classes sociais e o Presidente da República, dias depois, convidava-me para almoçar em sua companhia.” A partir daí deliciava-se com o sucesso alcançado, embora não descartasse enveredar por novas empreitadas aventureiras, caso cansasse de tantas benesses.

Lima Barreto elaborava seus contos e romances de crítica social em linguagem direta, objetiva. Com a mesma objetividade queixava-se dos pomposos contemporâneos: “Não posso compreender que a literatura consista no culto ao dicionário”. Talvez por ser um mulato descendente de escravos, filho de um pai que enlouquecera, ele próprio condenado a sofrer temporada no Inferno de um asilo de alienados, tornara-se capaz de ver a sociedade letrada com um olhar crítico, além da iluminada superfície.

É aqui que levanto a questão entre verdade e aparências, exemplificada por tudo que escrevi acima. Metade dessa minha aparentemente vasta sapiência foi obtida em algumas horas de pesquisa no universo online, no qual reuni dados e informações de sites como coutrymeters.info, revistagalileu.globo.com, insideindonesia.org. Para a outra metade consultei a tradicional Enciclopédia Britânica, mais ou menos como fez o personagem no conto referenciado, lido via internet (dominiopublico.gov.br). Quase nada corresponde ao que sabia até agora, ou ao que de fato sei – sempre muito pouco, infinitamente menos do que eu gostaria.

Com base em ousadia, esperteza e falsidades Castelo construiu renome e reputação, no início dos anos 1910. Assim se constroem renomes e reputações até os dias de hoje, quando nunca foi tão fácil se fazer um sábio. Ou uma “sábia,” como é o meu caso…

Angela Barros Leal é jornalista e escritora