Como a Selic baixa e o Coronavírus ameaçam a sobrevivência das pequenas e médias empresas. Por Henrique Lyra Maia

Estamos diante de um cenário um pouco peculiar porque vivemos uma crise sanitária provocada pelo COVID-19 e com uma SELIC baixa, essas duas combinações impactarão de maneira diferenciada não apenas setores, mas também no porte das empresas


Henrique Lyra Maia, Bacharel em Administração de Empresas, Especialização em Administração Financeira e Mestrado em Administração de Empresas pela Universidade de Fortaleza, Especialização em Gestão Empresarial pela FGV e Doutorando em Contabilidade e Finanças pela FUCAPE Business School. Sócio da LYRA&MAIA Consultores Associados.

Muito se comemora a queda das taxas de juros lideradas pelo Banco Central do Brasil (BCB), que atinge hoje patamares “civilizados”. No sistema monetário atual, quanto menor a taxa de juros maior será o incentivo para produzir e consumir. Isso ocorre porque as empresas começarão a desengavetar projetos que antes eram inviáveis quando as taxas de juros eram mais altas. Em paralelo, o consumo também tenderá a aumentar porque taxas de juros menores incentivarão consumidores a poupar menos e consumir mais.

No entanto, estamos diante de um cenário um pouco peculiar porque vivemos uma crise sanitária provocada pelo COVID-19 e com uma SELIC baixa, essas duas combinações impactarão de maneira diferenciada não apenas setores, mas também no porte das empresas.

A queda da SELIC irá beneficiar muito mais empresas de grande porte do que as empresas de pequeno e médio porte (PMEs), porque boa parte da dívida dessas empresas são baseadas em um múltiplo ou uma taxa em cima do CDI. Por exemplo, 103% do CDI, 110% do CDI, CDI + 1,5% a.a. ou CDI + 1% a.a. Assim, quando a SELIC cai, essas empresas de grande porte conseguem diminuir o custo da dívida e vice-versa.

Veja por exemplo, o caso da empresa de capital aberta, a locadora de carros Unidas (LCAM3), que tem embutido em seu modelo de negócio a contração de dívida para financiar seu crescimento. Em 2016, a companhia tinha um custo da dívida de 10,8% a.a. após descontar o imposto de renda. No primeiro trimestre de 2020, a empresa reportou um custo de capital de 3,3% a.a., uma redução de 70%, no mesmo período, a SELIC caiu em torno de 80%, ou seja, o custo da dívida segue a trajetória da SELIC.

O segundo fator é que empresas de grande porte em geral são empresas que são enquadradas no Lucro Real e a dívida tem benefício tributário que as optantes pelo Lucro Presumido ou Simples não possuem. Dessa forma, a grande empresa tem um ganho duplo com a queda da SELIC: queda do custo da dívida e o ganho tributário.

Por outro lado, as PMEs não conseguem se beneficiar da queda da SELIC como as grandes empresas e acabam por ter uma redução muito limitada em comparação com a queda da SELIC.

Por que não conseguem? É que as PMEs são empresas que não tem balanços auditados, fazendo com que bancos tenham muitas incertezas quanto a confiabilidade dos números apresentados. Como um banco vai emprestar recursos para uma empresa cujo o proprietário muitas vezes não apura seus resultados de maneira confiável? É muito comum encontrar empresários que não sabem exatamente quanto lucram e qual o nível de endividamento ótimo.

As PMEs também não têm projeto de governança estabelecido, como boa parte dessas empresas são muito dependentes do proprietário, em caso de morte ou doença grave, como o negócio poderá pagar os empréstimos contraídos? Os bancos ficam fragilizados para emprestar dinheiro para negócios com esse flanco aberto.
Por fim, esse segmento não possui tamanho relevante para absorver choques de oferta e demanda na sua estrutura. Em geral, são empresas que sobrevivem de nichos que são dependentes de poucos clientes, mercados geográficos e/ou produtos, fazendo com que qualquer oscilação de mercado tenha um impacto muito grande nos resultados da empresa.

Todos esses riscos têm que ser precificados pelos bancos ao realizar operações de empréstimos para as PMEs. Isso corrobora com a nossa vivência dentro desse segmento, onde encontramos empresas com custos de dívida médio de 15% a.a. a 30% a.a. e sem poder obter o benefício tributário. Mesmo realizando um trabalho de reestruturação da dívida e reduzindo significativamente esse custo, em geral esse segmento consegue estacionar a taxas de 8% a 13% a.a., ou seja, mesmo otimizando, pode ter uma dívida quatro vezes maior em comparação a de uma grande empresa.

O que está acontecendo é que com a queda da SELIC e o choque de demanda provocada pelo COVID-19, as empresas de grande porte têm aproveitado taxas de juros menores e devido ao seu tamanho, consegue suportar melhor os choques recentes.

Em contrapartida, as PMEs estão sofrendo aumento das taxas de juros devido a também o aumento do risco sistêmico. Vale a pena destacar que quando há crises sistêmicas, as PMEs tendem a sofrer aumento de custos de financiamento e diminuição dos respectivos prazos, porque os agentes financeiros avaliam que esse segmento tem menor poder de fogo para superar uma crise. As empresas de grande porte, poderão até sofrer aumentos de taxas de juros, mas num incremento muito menor do que as menores.

A maioria das PMEs não sabem de fato qual é o seu lucro e o fluxo de caixa gerado no mês, qual o custo médio e o duration da dívida, a sua necessidade de capital giro e o ponto de equilíbrio, apenas para citar alguns itens críticos para tomar melhores decisões. Isso traz um custo enorme de competitividade dessas empresas em comparação com as grandes.

O momento agora pede uma profissionalização financeira urgente das PMEs ou elas poderão ser engolidas pelas grandes. O Corona Vírus é uma grande oportunidade das grandes empresas ganharem market share em cima das pequenas e médias desorganizadas financeiramente.
Se as PMEs não organizarem a sua estrutura financeira, corremos um risco de vivenciarmos um cemitério de PMEs e um avanço significativo das grandes empresas, provocando uma concentração de mercado.

É uma profecia fora da realidade? Isso já está acontecendo diante dos nossos olhos, até março já fecharam mais de 600mil pequenas e médias empresas no país enquanto que até o momento nenhuma empresa de capital aberto fechou suas portas por conta dessa crise . Lembrando que em 2019, foram justamente as pequenas e médias empresas que contribuíram para a geração positiva do saldo de empregos, enquanto que as grandes tiveram saldo negativo .

O crescimento do Brasil passa também pela sobrevivência das pequenas e médias empresas. Teremos mais dificuldades de se recuperar economicamente se elas ficarem pelo caminho.


https://www.cnnbrasil.com.br/business/2020/04/09/mais-de-600-mil-pequenas-empresas-fecharam-as-portas-com-coronavirus.
Há pedidos de recuperação judicial em andamento, no entanto, não houve empresas que fecharam suas operações e declararam falência.
https://veja.abril.com.br/economia/pequenos-negocios-abriram-731-mil-vagas-de-emprego-em-2019/