Blog do Resenhador

por Leopoldo Cavalcante
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Uma prece pela volta do conservadorismo

Em países com maior tradição democrática do que o nosso pobre Brasil, liberais e conservadores serviam freiando-se mutuamente. Conservadores acalmam os animos destrutivos dos liberais; os liberais picam a complacência dos conservadores. Só que o equilíbrio acabou.


Um grande amigo meu certa vez me explicou seu posicionamento político da seguinte maneira:

“Leopoldo, eu sou politicamente a linha editorial da The Economist”.

Já na época, concordei. Hoje, adiciono os editoriais do Estadão.

Para um liberal clássico, o editorial da The Economist é um poço de lucidez. Não sei se é assim desde 1843, quando foi lançada, mas, ao menos na atualidade, a revista não me parece errar.

No jornalismo brasileiro tradicional, o fã da revista britânica mais influente foi Roberto Civita. No príncipio, a Veja tinha a ambição de propagar o liberalismo clássico tal qual a The Economist. Essa postura significou alguns atritos com a mentalidade da sociedade civil da metade do século passado.

Para Civita, o liberalismo cultural era tão necessário quanto o liberalismo econômico. Durante sua supervisão, matérias sobre aborto e drogas eram abordadas sem tabu. Não se defendia a moralidade das pautas, como acusam alguns conservadores, mas a liberdade legal de os indivíduos tomarem as decisões sobre suas ações.

O liberalismo, numa maneira de caracterizá-lo, seria, como ensina José Guilherme Merquior, citando o pensador italiano Luigi Einaudi, o governo da lei e a anarquia dos espíritos. Na miríade de opiniões que burbulham numa sociedade, portanto, o importante é não deixá-las subjugarem a liberdade das outras visões sem, tampouco, atentar contra o governo da lei, decidido pelo sistema democrático de freios e contrapesos. Isso no campo do Estado, ao menos.

Num sistema harmonioso, a sociedade civil vive em embates (a tal da anarquia dos espíritos). As querelas, até pouco tempo, giravam no âmbito da cultura em torno de conceitos como família, religião e tradição.

Uma maneira de qualificar opostos seria de comparar a visão conservadora à visão liberal. Para a The Economist, essa dialética sumiu no século XXI. E o grande culpado são os novos conservadores. Falarei disso depois.

Se por um lado, os liberais carregam a força destrutiva dos iconoclastas e do progresso econômico e social custe o que custar, visando uma sociedade moldada pelos indivíduos em atividade, os conservadores focavam na herança social, na tradição basilar ao conjunto humano estabelecido.

Em Edmund Burke, temos um pensamento que define a responsabilidade dos sujeitos ao passado, ao presente e “aos que estão por vir”. Portanto, caberia aos conservadores a prudência de lembrar de onde vieram, onde estão inseridos e quem herdará o mundo em que estão vivendo. Antes de ser uma filosofia, o conservadorismo seria uma predisposição.

O filósofo Michael Oakeshott definiu o conservadorismo da seguinte maneira:

“Ser conservador… é preferir o familiar ao desconhecido, preferir o experimentado ao não experimentado, o fato ao mistério, o atual ao possível, o limitado ao ilimitado, o próximo ao distante.”

Em “As ideias conservadoras: explicadas a revolucionários e reacionários”, João Pereira Coutinho retoma Oakeshott realçando alguns pontos que não são conservadorismo. Preferir o familiar não significa imobilismo. Um exemplo seria nas políticas públicas de, digamos, a guerra às drogas. Se essa medida falha há décadas, custando a vida de várias pessoas, já não há motivos racionais de permanecer defendendo-a.

Em um cenário ideal, um liberal clássico defenderia, por ideologia, a liberdade de indivíduos consumirem o que bem entenderem. Um conservador estudaria os dados disponíveis e poderia chegar à conclusão de liberar algumas drogas, de maneira gradual, para ver se o resultado seria proveitoso. Ou não. Mas o embasamento seria mais racional do que o é hoje em dia.

A guerra às drogas serve apenas de um exemplo – conscientemente polêmico – de como os dois lados abordariam as questões sociais. Em países com maior tradição democrática do que o nosso pobre Brasil, liberais e conservadores serviam freiando-se mutuamente. Conservadores acalmam os animos destrutivos dos liberais; os liberais picam a complacência dos conservadores. Só que o equilíbrio acabou.

A ascensão da nova direita inflamou o debate público. Os novos “conservadores” não tem mais nada de prudência e reflexão atenta. Para a The Economist, os arautos do bom-senso perderam seu posto aos cavaleiros do apocalipse da nova direita. O centro democrático esfarcelou-se, levando o eleitor a ter de escolher entre dois extremos. Na Inglaterra, as opções eram entre Jeremy Corbyn, o líder bem à esquerda do Partido Trabalhista, e um Partido Conservador radicalizado na figura de Boris Johnson. Nenhum dos dois me parece minimamente razoável.

No Brasil, algo similar ocorreu. Mas antes de lembrar da catástrofe eleitoral do ano passado, um parêntese.

Entre nós, a nova direita (tendo como representante maior o MBL) não inflamou sozinha o debate público. A polarização já estava presente desde antes. A esquerda brasileira parece achar que a democracia foi instituída não em 1988, mas em 2003, com a posse do ex-presidente Lula. E nosso sistema ruiu completamente em 2016, com o tal do golpe. De lá para cá, vivemos em um amontoado de hífens e neo-alguma-coisa. Comparado com a Ditadura Militar, nós temos democracia formal desde 1988, sim. Comparado com as condições de vida de países europeus, non troppo. Passado esse momento “editorial Estadão”, de volta ao texto.

Relembrar 2016 a 2018 é reviver uma grande derrota democrática. De um lado, a ascensão de um partido que já deveria estar nos confins do esquecimento da história democrática brasileira por todos os escândalos e abusos nos quais protagonizou. De outro, um militar marcado pela indisciplina no quartel, deputado de baixo calão com uma postura antidemocrática e agressiva, gritando impropérios e tendo um histórico iliberal, sendo vendido como o candidato mais apto a reerguir o país, reestruturar a moral de um povo, servir de inspiração.

Hoje estamos nas mãos de um Congresso que desistiu de dialogar com o infante que ocupa o Executivo e está decidido a contrariar seus acessos de birra. Não é nem um pouco inesperado que “o grande líder”, “o Messias”, não passasse de um péssimo político e uma péssima pessoa. Isso que acontece quando jogamos com extremos. Enfim.

O conservadorismo nunca foi belicoso. Sua atitude perante o mundo era de sabedoria e razoabilidade, como um ancião que viveu o suficiente para saber melhor. Os novos conservadores, em contrapartida, não têm nada de razoáveis. Eles estão com pressa de mudar o mundo, dispostos a jogar o bebê fora com a água de banho, atacar ferozmente os moinhos. Trocando em miúdos, a nova direita está pegando fogo.

Liberal clássico que sou, amigo do fairplay, só peço meu inimigo de volta. O professor pedante com ares de superior e com argumentos válidos e ponderados contra minhas certezas pueris. Não pessoas inconsequentes com respostas rápidas, precisas e equivocadas sobre tudo. Não gurus moldadores de espantalhos dissemidos por todas as lavouras já um tanto apodrecidas da opinião pública. É pedir demais?

PS: Não entrei no mérito da esquerda brasileira por ela ser culturalmente irrelevante. Esquerda aqui entendida, com muito reducionismo, à propagação de ideologia anticapitalista. Liberalismo cultural já engloba grande parte do que a nova direita luta contra, chamando, equivocadamente, de “marxismo cultural”. Em contrapartida, as pautas identitárias e suas influências culturais seriam assunto para um outro texto.

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