Blog do Resenhador

por Leopoldo Cavalcante
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Resenha: Mo Yan – Mudança


Autoficção é um estilo que os chineses não sabem fazer. Mo Yan (Nobel de Literatura 2012) parece não conseguir se segurar no sujeito “eu” enquanto escreve. Sempre a sua história vira a história de um país saindo da miséria, ou até de um caminhão soviético gradativamente falhando. E isso é uma vantagem que os ocidentais – em sua maioria – não conseguem captar.

“Mudança” esclarece bastante do progresso chinês. Principalmente depois da morte de Mao Tsé-Tung. A gradual transformação do socialismo chinês em um híbrido governo-mercado está exposta nesse livro na figura de He Zhiwu, colega de classe de Mo Yan. Aproveitando-se do falso altruísmo propagado pelo partido, He Zhiwu enriquece comercializando cavalos e caximira. O progresso-custe-o-que-custar mostra sua cara, permitindo corrupção e suborno, favorecendo os amigos do poder.

Nesse meio tempo, enquanto He Zhiwu enriquece, Mo Yan narra brevemente sua trajetória. De soldado raso até escritor famoso, sua história não parece nunca o foco. Ele sempre está mais interessado na vida de seus colegas de colégio – do qual foi expulso. Ou no destino do Gaz 51, caminhão soviético que o pai de Lu Wenli dirige. E que depois reaparece em seu cotidiano enquanto ele serve no exército. E que depois é explodido nas gravações da adaptação cinematográfica de seu best-seller Sorgo Vermelho.

No final do livro, sabemos que o “século da humilhação” ficou para trás. A miséria já não acomete as personagens, tampouco grande parte da população chinesa. Quem soube se aproveitar do governo para lucrar, lucrou – e continuará lucrando. Agora, o que virá? Pela tônica da última frase, mais do mesmo. Progresso, progresso e mudança.