Blog do Resenhador

por Leopoldo Cavalcante
Veja todos os artigos do autor

Resenha: Marcel Cohen – A Cena Interior

"É justamente a narrativa cheia de arestas e fios soltos que devolve aos deportados aquilo que lhes foi retirado pela brutalidade nazista: o relevo humano. Que não é feito da grandeza das peripécias, e sim dos pequenos hábitos, dos rituais íntimos que não servem para nada [...]".


“Tentar reconstituir algo daquela ruminação íntima aquém da linguagem, que ainda possa ser comunicada a outrem”. É com essa citação de Georges-Arthur Goldschmidt que Marcel Cohen começa sua Advertência – um prefácio mais adequado ao tema.

Quando se escreve sobre a Shoah, é a própria linguagem que fica tensionada. Primeiro, Shoah ou Holocausto? Shoah ou Calamidade? Sinônimos? Haveria como a linguagem, mesmo que utilizando sinônimos, alcançar o significado da Shoah? Aliás, deveria a linguagem alcançar o horror? Haveria como “reconstituir algo daquela ruminação íntima aquém da linguagem” de modo que “ainda possa ser comunicada”? Mas paremos por aqui.

Levando em consideração as dificuldades sociolinguísticas de falar sobre a Shoah, Marcel Cohen privilegia a memória da infância, entidade fugidia, com a pesquisa historiográfica e jornalística – além de impressões de um passado recente desse senhor judeu – sem nunca romantizar, sem nunca falar alto, sem nunca tentar entender o que foi viver um campo de concentração.

O livro é uma tentativa de reviver a memória de Marie, Jacques, Monique, Sultana, Mercado e Joseph Cohen, além de Rebecca Chaki e David Salem. A maior parte da história é contada em uma voz “passiva”, que trata essas pessoas pelo nome, não pela designação afetiva. Quando fala de Marie, dificilmente Marcel a chama de mãe. O afeto aparece nas lembranças infantis e na própria empreitada de entender o que aconteceu com sua família.

Na orelha, @michellaub diz: “É justamente a narrativa cheia de arestas e fios soltos que devolve aos deportados aquilo que lhes foi retirado pela brutalidade nazista: o relevo humano. Que não é feito da grandeza das peripécias, e sim dos pequenos hábitos, dos rituais íntimos que não servem para nada […]”.

Longe de falar do grande, da Shoah, Marcel Cohen reforça o pequeno. E é justamente nessa busca pelos detalhes que temos o “melhor antídoto contra a dissolução da experiência na frieza das estatísticas”.

A linguagem, no final, não explica a Shoah, mas consegue ao menos superar a razão.