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por Leopoldo Cavalcante
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Resenha: Jeremias Gotthelf – A aranha negra


Houve uma época em que Deus estava sempre ausente e sempre presente. Uma época em que a presença Dele era intuída na proteção ativa dos lares, com ritos e rezas, com águas bentas e batizados. Longe dessas formalidades, o homem era marcado pelo pecado e destinado ao Diabo. Que perecessem, que sofressem, afinal, a salvação não era para todos. E não havia nada de errado com isso. São as regras da reforma protestante. Jeremias Gotthelf (Gott = Deus; Helfen = ajudar), como bom pastor, serviu de Homero para a Suíça, propagando o que havia de mais terrível na terra, para que todos voltassem-se para Deus. “A aranha negra” é um apanhado de histórias populares com uma pitada de acontecimentos na região. Inspirado no demônio de Goethe com as duas ondas de peste negra, Gotthelf expõe os temas do bem e do mal num vilarejo suíço.

Pelo uso de técnicas narrativas avançadas, essa novela ultrapassa os contos de fadas e as histórias moralizantes para ganhar o terreno das histórias de terror, que irão se popularizar um século depois.

Daria para discutir questões de gênero na novela, a relação de ecos, se é ou não um Homero da literatura alemã, como disse Thomas Mann etc. mas eu queria falar sobre algo menos polêmico: o cristianismo.

Tenho um orientador, especialista em Santo Agostinho e em jansenismo, que sempre fala que o cristianismo só é paz e amor até a página dois. Isso não é uma crítica à religião, longe disso. Talvez seja sua maior vantagem. O jogo de claro e escuro no cristianismo é impressionante em vários níveis. Trouxe histórias redentoras, como os Evangelhos, e o mais terrível e bizarro dos contos de terror, como essa Aranha Negra.

Gotthelf não “ultrapassa” o cristianismo com uma boa literatura. Ele está imerso nele. Ampliando a escuridão dos detalhes cristãos, o claro do homem vêm à tona, como uma balança de precisão, equilibrando-se sobre sabe-se lá quais regras. Escrever sobre os demônios do homem para que os desejos pelo mal sejam suprimidos (dixit Nelson Rodrigues). No final, talvez, uma só natureza nos foi dada. Talvez todos sejamos ruins, todos perversos. Enfim. Haja saúde.