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por Leopoldo Cavalcante
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Quando Bob Dylan sonhou com Santo Agostinho

I Dreamed I Saw St. Augustine é a terceira música do que talvez seja o álbum mais bíblico de Bob Dylan,  John Wesley Harding, de 1967. Por um acaso do destino, essa canção não teve a fama de uma outra música daquele álbum: All Along the Watchtower. 


“Não incrimo as palavras,
quais vasos escolhidos e preciosos,
mas o vinho do erro que por eles
nos davam a beber os mestres embriagados“

Confissões, Santo Agostinho

 

Quando certa manhã Bob Dylan acordou de um sonho intranquilo com Santo Agostinho, ele escreveu uma música. Nela, o profeta moderno conta que viu o Santo vivo como eu e você. Agostinho, bispo de Hipona, andava pelos quarteirões com um cobertor por debaixo do braço e um casaco de ouro maciço. Ele procurava pelas várias almas que já estavam vendidas e pregava:

– Levantem-se! Levantem-se! -, gritou Agostinho, sem nenhum constrangimento, – Saiam daí, ó, abençoados reis e rainhas, e ouçam minha triste denúncia. Nenhum mártir que possais chamar de vosso anda convosco. Então sigais vossos caminhos, mas sabeis que não estão sozinhos.

Nesse sonho intranquilo, Santo Agostinho estava vivo, com a respiração ardente, e Dylan entristeceu-se por ter sido um daqueles que o matou. Sozinho e amedrontado, Dylan pôs os dedos sobre o vidro, inclinou a cabeça e chorou.

I Dreamed I Saw St. Augustine é a terceira música do que talvez seja o álbum mais bíblico de Bob Dylan,  John Wesley Harding, de 1967. Por um acaso do destino, essa canção não teve a fama de uma outra música daquele álbum: All Along the Watchtower. 

Jimi Hendrix preferia a sobre Santo Agostinho, mas achou que ela carregava um valor sentimental muito próprio a Dylan. Nisso, escolheu eternizar com seu arranjo de guitarra aquela outra, inspirada no livro de Isaías.

Antes de falar um pouco mais sobre o sonho de Bob Dylan, uma ressalva. Há várias maneiras de interpretar uma peça. Provavelmente nenhuma delas é correta. Nesse infinito leque de erros, já deixo inclusa a interpretação que farei. Além disso, extrapolações fazem parte da beleza exegética e, como o centro das atenções é Agostinho, um pouquinho de pathos aqui e tantinho de retórica ali não farão mal. Voltando.

Em uma entrevista de 1968 ao jornalista Toby Thompson, a mãe de Dylan, Beatrice “Beatty” Zimmerman, contou do interesse crescente do filho pela Bíblia. Ela falou que uma Bíblia enorme sobre a mesa central chama a atenção entre todos os livros jogados pela casa do filho. Era lá que ele buscava referências naquele fim de década, pré Woodstock, pós assassinato de Kennedy.

Quando Jesus fala (Mc. 6) que ninguém é profeta na própria terra, há um certo pesar na sua declaração. Mas pior do que não ser profeta na própria terra é ser profeta para o rebanho errado. Explico. Muitas interpretações das músicas de Dylan ignoram o caráter religioso de suas narrativas. Nas leituras mais comuns, temos um Dylan que usa de imagens bíblicas para representar o mundo da contracultura, da revolta do indivíduo contra o Sistema. Nada de errado, não. Mas provavelmente há mais do que isso.

Robert Zimmerman era judeu de criação. Foi na universidade, entre os círculos de músicos folk, que ele criou Bob Dylan. Sua paixão pela música popular (“folk music”) veio de suas canções mais tristes, mais desesperadas, com mais fé no sobrenatural. Pela ligação estilística de sua música com o popular, o pulo às temáticas sociais e aos movimentos políticos – muitos com ligação religiosa – da época podem ser quase acidentais. Ou não. O fato é que Dylan ganhou fama no meio da contracultura com canções como Desolation RowTimes They’re a changin’ e Blowin’ in the Wind, todas poeticamente envolvidas por uma aura de mudança e insurreição social.

Com sua escrita concisa, Dylan pregava vinda dos novos tempos para quem estivesse disposto a ouvi-lo. O mundo estava mudando e “o perdedor de hoje iria ser o vencedor”. Para quem lutava contra o inimigo inefável apelidado de Sistema, esse cantor era nada menos do que um profeta. E haveria problema ser profeta? Para alguém com um vínculo espiritual judaico-cristão, sim.

Em Números 11, nos versículos 25 a 29, o Espírito Santo sopra em setenta líderes judaicos reunidos com Moisés numa tenda e todos põem-se a profetizar. No entanto, duas autoridades, Eldade e Medade, que estavam no acampamento, do lado de fora da Tenda, puseram-se a profetizar em público. Um certo jovem corre para avisar a Moisés sobre o acontecido. Josué, um jovem que auxiliava Moisés, exclama: “Moisés, meu senhor, proíba-os!” Mas Moisés respondeu: “Você está com ciúmes por mim? Quem dera todo o povo do Senhor fosse profeta e que o Senhor pusesse o seu Espírito sobre eles!”

Nessa passagem do Antigo Testamento temos uma representação particular dos profetas. Antes de juntá-la à música de Dylan preciso recortar dois detalhes. O primeiro é que o Senhor que concede o Espírito, ou seja, não é inato a ninguém estar ungido pelo Espírito Santo, apenas àqueles que foram escolhidos para a graça. O segundo é que Moisés deixa claro a própria humildade e submissão ao Senhor e expressa o desejo de que todo o povo de Deus seja profeta.

Para um amador em teologia, a figura do profeta está sempre vinculada ao divino. Bob Dylan, por ser judeu e intelectual, tem um conhecimento considerável do Antigo Testamento. Durante todo o álbum John Wesley Harding, Dylan esbanja sua erudição sobre o Novo Testamento, também. Talvez seja uma afronta dizer que ele é apenas um amador em teologia. Por isso, é com alguma segurança que afirmo que ele tinha consciência do peso de ser chamado de profeta.

A cruz que Dylan carregou durante a década de 60, sendo chamado de profeta por hippies fixados em mensagens bonitinhas, música legal, drogas e sexo barato, mostra seu peso em I Dreamed I Saw St. Augustine. Talvez tenha sido essa agonia interna que Jimi Hendrix captou nessa música, escolhendo tocar All Along the Watchtower, mais impessoal, mais em terceira pessoa.

Santo Agostinho, no sonho de Dylan, fala que não há mais mártires modernos, aqueles dotados de graça e a serviço eterno ao Senhor. Clama para seguirmos nossos caminhos sabendo, entretanto, que não estamos sozinhos. E Dylan – ou a voz poética – entristece-se porque pensa ser um daqueles que o matou. Como assim?

Entre as muitas angústias que perseguiram ao bispo de Hipona, ter sido assassinado não foi uma delas. Agostinho morreu de doença durante o cerco de uma tribo germânica, os Vândalos, à cidade de Hipona. Seriam a esses bárbaros que Dylan vê-se junto no sonho? Pouco provável.

Em seus comentários sobre o Sermão do Monte, Santo Agostinho ensina: “A ciência [scientia] é própria dos que choram, os quais conheceram já pelas Escrituras quais são os males que os mantém acorrentados […]”. Uma leitura provável é que Dylan açoitava-se por ter desvirtuado a Verdade. E por propagar em suas músicas algo distante de Deus, reforçando a cisão espiritual do mundo ocidental. Talvez esteja nessa música o presságio da pior fase musical de Bob Dylan: quando ele se converte ao evangelismo e compõe alguns álbuns de pop gospel. Para quem tinha trabalho até ali no limiar do não-dito, rondando o mistério sem nunca o descobrir, é de uma queda estética tremenda. Mas enfim.

Quando os vândalos invadem Hipona, Agostinho universaliza a situação da cidade em referência a toda queda de Roma. “Tu te espantas que o mundo chegue ao fim?”, retoricamente pergunta o bispo no seu sermão 81, “Mais vale que te espantes de vê-lo chegar à idade tão avançada”. Enquanto os muros caiam e os corpos se amontoavam, Santo Agostinho pregava que o mundo é como o homem, nasce, cresce e morre. O fim é inevitável. Mesmo que os tempos estejam mudando, Deus é, e estará sendo, eternamente. E é n’Ele que devemos nos pregar.

No sonho inquieto de Dylan, quem cantava para os escritores e críticos que profetizavam com suas canetas, o Santo começa sua pregação exclamando aos ouvintes: “Levantem-se! Levantem-se!”. O mundo não era o melhor em 1960. Tampouco melhorou. Não temos referenciais de grande fé, a agonia da vida ainda é a mesma, a mácula humana continua exposta e nem o vinho do erro parece embriagar. Mas, mesmo assim, quando tudo está caindo e só as ruínas ocupam nossa visão, levantar e saber que não andamos sozinhos seja, por excelência, a lição agostiniana. E, se serve de algum consolo, Dylan, profeta ou não, traduziu com excelência sua triste denúncia.