Blog do Resenhador

por Leopoldo Cavalcante
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Pulmão de quimera

Não imaginar o futuro é uma das minhas regras tacitas pra manter a pouca lucidez que me resta. Sem elucubrações portanto. Sem elocubrações... Sem... Mas...


Xícara de café em riste, descia o feed. Entre celebridades e animais, estava uma matéria da Der Spiegel que me chamou atenção. O título era “Japão libera o nascimento de mistura entre homem e animal”.

Pode parecer bobagem minha, mas ainda me surpreendo com o mundo científico. Quando menos espero, derrubam o muro confortável entre a ficção e o real.

Há alguns anos, fui uma espécie de líder de torcida ainda mais cafona (sim, é possível). Ficava lá, pavoneando os avanços da biotecnologia como se ela fosse a solução para os problemas do mundo. Bastaria juntar peças robóticas aos seres-humanos e avançaríamos a um novo patamar evolutivo. Não mais gripe, não mais esquecimento. O paraíso na terra.

Mas me afastei.

Deixei o pouco que sabia de ciência e fui para sociais e literatura. Essas duas áreas não deram resposta alguma, mas trouxeram inquietações. Formei uma visão de mundo mais cética em relação ao tal de paraíso na terra (spoiler: não dá) e percorri minha vida ignaro ao mundo moderno. Tão ignaro que a própria palavra ignaro virou normal na minha cabeça. Enfim.

Se o Homem é, como os autores medievais que eu leio hoje em dia, um camaleão, semelhante a tudo e a Deus, maculado ao baixo mundo, mas descendente direto do Divino, onde cabe colocarmos dentro de nós um pâncreas cultivado em um rato?

Sempre que aquele verso do Eclesiastes sobre não haver nada de novo sol o Sol ecoa na minha cabeça, penso nos avanços científicos. Como ideia, claro, nada de novo. Misturar homem com bicho até os egípcios fizeram. Mas realmente misturar homem vivo com bicho vivo e manter os dois vivos, aí que tá o pulo do gato (que pode ser de onde virá seu próximo fígado).

Se a moda pega, não sei o que vai acontecer. Não imaginar o futuro é uma das minhas regras tacitas pra manter a pouca lucidez que me resta. Sem elucubrações portanto. Sem elocubrações… Sem… Mas…

Digamos que consigam produzir um pulmão humano nesses ratos; quem sabe ter parado de fumar não tenha sido uma ideia não condizente com o Espírito do Tempo? E podemos beber mais, certo? Acho que seria uma boa investir nesses fígados de quimera…