Blog do Resenhador

por Leopoldo Cavalcante
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Preciso falar do último filme de Woody Allen

Justamente no ponto forte do diretor, vemos um cansaço. A mesma formula repetida há quatro décadas, mas já esgotada pelo tempo. "Um dia de Chuva em Nova York" não acrescenta nada à filmografia do diretor. Não o atualiza no tempo. Não fecha seu legado.


É um filme preguiçoso.

Não entro no mérito por trás do filme, do boicote ao filme, das acusações sobre o diretor. Tudo isso deixo para os outros resenhistas, mais afeitos a polêmicas sociais do que à direção da história.

Pois bem.

“Um dia de chuva em Nova York” é a história do casal Gatsby (Timothée Chalamet) e Ashleigh (Elle Fanning). Ela, uma caipira rica e estudante de jornalismo, consegue a entrevista dos sonhos com o diretor Roland Pollard (Liev Schreiber) em Nova York. Gatsby, um nova-iorquino rico, se anima para mostrar à namorada a cidade maravilhosa – ou a penumbra do que um dia foi Nova York.

Como em “Meia-noite em Paris”, Woody Allen idealiza o passado. Nesse caso, o de Manhattan. Gatsby (um nome bem antiquado que casa perfeitamente com a aura antiquada do filme) anda pelas ruas em busca de bares com pianos antigos e restaurantes temáticos à moda de 1920. Nas suas andanças, ele encontra Chen (Selena Gomez), a irmã mais nova de uma ex-namorada e revive sua paixão pela cidade por meio das lembranças idealizadas (um adjetivo que repetirei bastante) daquele amor cosmopolita.

Enquanto Gatsby regoza o passado, Ashleigh entra em um turbilhão de relacionamentos improváveis com os grandes nomes do cinema. O diretor, o roteirista e um galã se apaixonam por ela e a querem como musa. “Por que meninas novas gostam tanto de homens mais velhos?”, pergunta Gatsby, em algum momento. Nessa passagem, é como se Woody Allen zombasse das próprias acusações de assedio que pairam sobre ele, invertendo o afeto e culpando as moças. Se fosse escrito em 2005, até passaria como uma piadinha inofensiva. Sendo 2019, e Woody Allen, fica como provocação desconexa.

A história do filme é simples. Como qualquer filme do Woody Allen, pouco acontece. O que consolidou sua carreira são os roteiros inventivos, e isso é lugar comum. Como roteirista, poucos constroem diálogos engraçados e espirituosos como Woody. Ou construiam.

Justamente no ponto forte do diretor, vemos um cansaço. A mesma formula repetida há quatro décadas, mas já esgotada pelo tempo. “Um dia de Chuva em Nova York” não acrescenta nada à filmografia do diretor. Não o atualiza no tempo. Não fecha seu legado.

Com seus 84 anos, consciente da morte, Woody Allen tentou capturar toda sua gloria nessa último filme. Quando estava passando em uma seção privada seu novo filme, o diretor Roland Pollard reclama que é o pior filme que ele já gravou. Ashleigh o contesta. “Parece um Pollard do passado, tem tudo que você fez de grandioso antigamente nesse filme”. Parece que Woody faz um metacomentário sobre o próprio “Um dia de Chuva em Nova York” nesse momento. O que ele deve ter percebido é a ironia de que apenas a jornalista caipira parece gostar do filme, mais pela aura de submissão ao diretor do que pela qualidade estética do produto. Nesse momento, Woody Allen sublima o desejo de ser adorado como totem. Só quem poderia duvidar dele é ele mesmo. A nós, pobres caipiras, sobra-nos as palmas.

Para não ficar apenas no ruim, vale elogiar a fotografia. Com suas lentes e seu olhar atento, Vittorio Storaro auxilia o diretor a trazer a aura perdida de Nova York.

Não vale como boa história, mas serve como um filme bem filmado.