Blog do Resenhador

por Leopoldo Cavalcante
Veja todos os artigos do autor

Onde estará você, João Gilberto?

Hoje, dia seis de julho de 2019, morreu aos 88 anos João Gilberto. Acabou-se a chance de conhecer mais dele. De saber o que ele pensava. Dos casos secretos da música brasileira. Se, em qualquer circunstância, morrer é perder toda uma experiência de vida, mitologias, crenças e ideias não eternizadas em palavras, o que significa morrer uma entidade brasileira?


João Gilberto com seus vinte anos estava com amigos numa madrugada na frente da casa de uma paquera. Ele ainda estava criando o seu estilo peculiar. Sua voz meio sussurrada, discreta quase, não combinava muito com um galanteio. Longe de chamar a atenção da moça, que provavelmente dormia tranquilamente em casa, João parecia que tocava para si, caladinho, tendo como plateia seus amigos exasperados, revoltados com aquele absurdo de João.

“João, se você continuar tocando baixo assim ela não vai prestar atenção!”, disse um dos amigos.

João Gilberto, então, colocou o violão de lado, levantou-se e pegou uma rocha, jogando-a ladeira abaixo. Todos ficaram assustados com o estrondo. João tranquilamente abraçou o violão, sentou-se e continuou tocando, baixinho.

Nas últimas décadas, João Gilberto sumiu. Assisti a um filme uns meses atrás chamado “Wo bist du, João Gilberto?”, ou “Onde está você, João Gilberto?”. É quase um thriller policial em formato de documentário. A busca incessante de Georges Gachot, jornalista suíço, pelo esquivo João Gilberto.

Gachot fala com muita gente. Conversa com gigantes da música brasileira como Miúcha (falecida ano passado), Marcos Valle, João Donato e Roberto Menescal. Todos têm uma história com o João Gilberto, mas nada de um paradeiro. As peças desse enigma não se juntam, mas se complementam em um sentido poético, não objetivo.

Toda a sua empreitada é inspirada no livro Hó-ba-la-la, do alemão Marc Fischer. O jovem veio ao Brasil apenas para conseguir falar com João Gilberto. Um fã apaixonado e atormentado que morreu antes de conseguir qualquer contato com seu ídolo. Não sei se João Gilberto soube dessa história. Não sei se ele se importaria, também. Na verdade, sei de quase nada. E não estou sozinho.

Lorenzo Mammì, crítico cultural brasileiro de primeira qualidade, reservou várias páginas de seu “A fugitiva – ensaios sobre música” para João Gilberto. No parágrafo inicial do capítulo “No mesmo lugar, muito à frente”, Mammì fala de um desconforto causado por João Gilberto a nós, brasileiros, apegados à música de nosso país dos últimos 50 anos:

“A celebração dos oitenta anos de João Gilberto proporciona certo desconforto. Não que ele não mereça. Mas a própria ideia de comemoração, com seu alarde festivo, não parece condizente com uma personalidade tão esquiva. Atrás de todas as páginas publicadas, memórias, artigos, testemunhos, fica a impressão de que ninguém sabe ao certo quem ele é. E que a expressão evasiva, quase abobalhada, com que pronuncia poucas frases em público é uma máscara com a qual ele consegue nos ludibriar há décadas. Ou não? E se sua figura, seu papel de referência para tudo o que foi produzido na música brasileira dos últimos cinquenta anos, tiver crescido a tal ponto que já não admite um indivíduo atrás dela? João Gilberto virou uma espécie de entidade, mais do que um simples intérprete de canções, e entidades não fazem aniversário. Seu aniversário é o aniversário de um país, mais do que ele uma pessoa.”

Hoje, dia seis de julho de 2019, morreu aos 88 anos João Gilberto. Acabou-se a chance de conhecer mais dele. De saber o que ele pensava. Dos casos secretos da música brasileira. Se, em qualquer circunstância, morrer é perder toda uma experiência de vida, mitologias, crenças e ideias não eternizadas em palavras, o que significa morrer uma entidade brasileira?

Bem, concordo com Mammì de que o aniversário de João Gilberto não é o aniversário de uma pessoa, mas de um país. E isso porque tudo que João Gilberto fez moldou nossa percepção, nossa arte, nossa cultura e a visão exterior sobre nós, reles cidadãos de um país tropical, felizes eternamente durante quatro dias do ano. Ele, indivíduo, ao morrer, causa penar e tristeza que não tem fim. Mas, porque tocou calmamente seu violão, viverá para sempre na nossa memória coletiva, mesmo que nunca tenhamos verdadeiramente o conhecido.

Georges Gachot termina seu documentário com a câmera repousando sobre o corredor do Copacabana Palace. Ele abre a porta do quarto onde João Gilberto se isolava e entra sozinho. Segundos de silêncio. E então um violão. Uma voz da altura do instrumento. Não podemos ver. Não sabemos como é o músico. Mas nos sentimos próximos, mesmo que tão distantes. Porque é assim com as entidades. Estão sem estar, e nunca deixam de estar.

João Gilberto morreu. Vida longa a João Gilberto.