Blog do Resenhador

por Leopoldo Cavalcante
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O Golias sensível de Tom Gauld


“Eu sou Golias de Gate, herói dos filisteus. Desafio-vos: escolhei um homem que venha até mim e que lutemos. Se ele for capaz de me ferir, então seremos vossos servos. Mas se eu o ferir, então vós deveis ser nossos servos.”, e Golias desmaia. Quando acorda, diz: “Houve um engano… Não sou um herói. Sou o quinto pior espadachim do meu pelotão… Cuido de burocracia! Sou um administrador muito bom”. E eis o herói.

Tom Gauld relê a história de Davi e Golias sob a ótica do gigante. Mas Golias, para Gauld, é um burocrata sensível, carinhoso e pacífico. Se ele foi posto nas linhas de combate entre as tribos, foi por acaso e por seu tamanho. Se permaneceu até a chegada da pedra de Davi, foi por ter se habituado à violência simbólica de uma guerra que nunca chegava.

Nesse quadrinho, o traço simples de Gauld casa com a personagem humilde de Golias. Toda a delicadeza na abordagem da história se reflete nos recursos inteligentes e indispensáveis na sua própria completude, ou seja, o pouco que há é o pouco que tem de haver. Sintético como a Bíblia, meditativo como quadrinhos.

Golias, o gigante cheio de compaixão, termina com uma pedra atirada pelo enviado de Deus. Golias, que ficou até o final apenas por ter-se habituado ao ambiente, foi decapitado por um menino ungido por Deus para vencer um gigante filisteu que jamais lhe faria mal algum. Davi e Golias, o bem e o mal, a história vencedora e a ignorada.

São essas as nossas guerras. São esses os nossos vilões e heróis.

Ficha técnica:
Livro: Golias
Autor: Tom Gauld
Editora: Todavia
Ano de lançamento: 2019
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