Blog do Resenhador

por Leopoldo Cavalcante
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Mais uma vez, o fim do mundo

Fique em casa


Nem completou um ano da última vez que escrevi sobre o assunto. Tinha lido Apocalipse e o Sermão sobre a queda de Roma, de Jérômi Ferrari. O fim do mundo estava na minha cabeça, mais como teoria do que prática. Hoje, mais como prática do que teoria.

No apartamento, terceiro andar, vejo os escritórios vazios e os prédios ao redor tiritando movimento em plena duas da tarde. São Paulo teria se tornado uma cidade de aposentados aos 20 anos (tirando a parte de auxílio previdenciário) não fosse os computadores e essa expressão anglicana tão popular: home office. Os prédios, com seus olhos de cão sem dono, devem buscar em mim a irmandade que busco neles.

Sim, ano passado escrevi na teoria o que hoje é prática. Não sobre o fim do mundo. Que o mundo não vai acabar. O mundo sempre está acabando, na verdade. Mas sobre a sensação de fim de mundo. Sobre mercados sem mantimento; objetos cotidianos besuntados em álcool e gel; cigarros que deixamos de cultuar voltando a queimar na varanda; leituras atrasadas; blogs que andavam parados.

Sobre a sensação de que Santo Agostinho estava correto. “Mais vale que te espantes de ver o mundo chegar a idade tão avançada”. Talvez tudo deixe de ser como era. O corpo, nosso objeto de fixação quando tudo anda tão bem e quando tudo anda tão mal, é iluminado não pela liberdade, mas como prisão.

Nesses momentos de tensão e de incerteza, as boas notícias aliviam. Apesar de um número de mortos crescente, a humanidade nunca esteve tão unida. Nossa força de pesquisa cientifica nunca foi tão rápida. Nossos órgãos institucionais nunca agiram com tanta eficiência. Nossos jovens – ah, nossos jovens – nunca responderam de maneira tão empática às intempéries dos tempos.

Nossos jovens. Se a propagação não se alastra com tanta velocidade é pelos jovens que se recusam a sair de casa em prol dos adultos e idosos. Para nós, talvez – porque não temos pesquisas para confirmar – seja só uma gripe. Para nossos pais, a morte.

Se as escolas estão vazias antes da hora e se as universidades estão com 1/5 do corpo de alunos, é pelo bem das pessoas que ainda não viram o tamanho da catástrofe. Porque, não importa quão velho se seja nesse mundo, ninguém no ocidente viveu uma pandemia desse nível. Ninguém lembra da última vez que algo dessa magnitude aconteceu. Estamos sob o olhar vigilante da história; agindo sob as diretrizes recomendadas por teorias formuladas após a febre amarela. E parece ser essa a nossa única opção.

Sim, ano passado escrevi na teoria o que hoje é prática. O fim do mundo percorre nosso imaginário desde que o mundo é mundo. Só que até que se prove o contrário – assinado por Deus, e com firma autenticada –, esse apocalipse pode ser evitado. E nem precisamos passar sangue nos batentes laterais e no alto das portas. Basta deixás-la fechadas. Só sair quando realmente necessário.

Para finalizar em tom maior, deixo aqui a tradução da música que Jorge Drexler estreou na Costa Rica há cinco dias, sobre os dias em que vivemos – e que deixaremos para trás:

Cotovelo com cotovelo (CODO CON CODO)

Já voltarão os abraços,
os beijos dados com calma.
Se encontra um amigo,
saúda-o com a alma.

Sorria,
jogue-lhe um beijo.
De longe, esteja perto.
Não se toca o coração
somente com a mão.

A paranoia e o medo não são,
nem serão,
o jeito.
Desta sairemos juntos dando
cotovelo com cotovelo

Olhe as pessoas nos olhos.
Demonstre que se importa.
Mantenha à distância seu amor
de distâncias curtas.

Se puder, não se preocupe.
Com cuidado já alcança;
e deixar que seja o amor
o que inclina a balança.

A paranoia e o medo não são,
nem serão,
o jeito.
Desta sairemos juntos dando
cotovelo com cotovelo.