Blog do Resenhador

por Leopoldo Cavalcante
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Jorge Luis Borges, o mestre do verso e seu ofício


Faço parte daquele seleto grupo de pedantes que elegeram Borges como maior autor latino-americano do século passado. Por ser hiperbólico e amar demais um falecido escritor argentino, peço perdão. Mas se ainda há dúvidas sobre a grandeza de Borges, basta ler esse relato.

Como um conto borgiano, esse livro são gravações esquecidas dadas por Borges em Harvard entre 1967 e 1968. A humildade e o relato melodramático (sim, Borges é melodramático) de conceitos literários, ideias poéticas, figuras do medievo e de inglês antigo formam um todo inacreditável, absurdo em potência e em referências obscuras.

Em várias passagens, Borges recita versos em alemão, inglês moderno, espanhol, inglês antigo etc. Seria até normal e só um tanto pedante. Mas acontece que ele já estava cego em 67 e 68. E a maneira como ele expõe os poemas não tem nada de pedantismo. Se ele recorda cada palavra lida há décadas, é pela força do amor à literatura.

Não pretendo convencer ninguém da grandeza de absolutamente nada. Leia Borges se quiser. Caso a Musa que o inspirava lhe toque o coração, a lista de filiação ao seleto grupo de pedantes estará disponível.

‘¿me oyes, amigo no mirado, me oyes
a través de esas cosas insondables
que son los mares y la muerte?’

(Excerto de ‘A cierta sombra, 1940’, poema de Borges)”