Blog do Resenhador

por Leopoldo Cavalcante
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Jérôme Ferrari e O Sermão sobre a queda de Roma


A França está decadente. De acordo com alguns intelectuais, o Ocidente vai perecer. Não é uma possibilidade, é uma certeza. Como Santo Agostinho, bispo de Hipona, recebeu a notícia da tomada de Roma e do consequente fim de uma era, teremos (ou tivemos) uma mensagem de Whatsapp prenunciando a Queda.

A intelectualidade francesa sumiu nos últimos cinquenta anos. Depois daqueles filosofos pós-modernos (Deleuze e Guatarri sendo os que demoraram mais para morrer), quase nada de inquietante produziu a França. Agora, os arautos do apocalipse ocidental, em sua maioria franceses, devolvem os refletores àquela terra. Jérôme Ferrari faz algo assim.

A história do romance é a fuga/retorno de dois amigos, um urbano criado em Paris e o outro rural. Ambos estudaram filosofia e trocaram a vida acadêmica para administrar um bar na Córsega, afinal, estudar filosofia lhes deu “fortuna em uma moeda que não é mais corrente”. À vida prática e ao lucro prático, então.

No bar, os amigos criam um simulacro. A imagem do demiurgo é frequente no livro. Diferente de Deus, perfeito e eterno, criador de um mundo infalível e inefável, o demiurgo vive na ilusão de ter aproximado sua criação a de Deus. E, por isso, está fadado ao fracasso. De certa forma, não há surpresa quando os amigos caem e vêem as ruínas de sua utopia erótica e etílica. “Tu te espantas que o mundo chegue ao fim?”, prenuncia o começo do livro.

Em um estilo poético e nauseante, O Sermão sobre a Queda de Roma laça a história conturbada do século XX com os dramas do indivíduo do século XXI. Seríamos nós, agora, os romanos tendo que nos consolar com o fim?

O niilismo do final do romance tem algo de esperançoso, viver no caos tem algo de esperançoso, mas, às raízes, lembrando Santo Agostinho, “talvez Roma não tenha perecido, se os romanos não tiverem perecido.” O que carregamos para levar adiante? O diferencial da nossa diáspora vai ser o culto ao Nada?