Blog do Resenhador

por Leopoldo Cavalcante
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Gastrite, frio e Dostoiévski

Dostoiévski é o maior pior escritor da literatura mundial


Dostoiévski é um gênio. Ok, platitude pura essa constatação. Mas é que estou impressionado.

Acontece que nunca tive paciência praquele russo. Ou pros russos em geral. Por algum motivo, só gostava da música, mas não da literatura. Li Gogol há uns anos e foi divertido; nada espetacular. Dovlatov também. O maior russo que conheci foi Limonov, escritor “biografado” por Emmanuel Carrère, um francês. Talvez seja um problema meu com a estética literária eslava em geral, não sei bem. E não vem ao caso.

Dei muitas desculpas antes de iniciar Os Irmãos Karamázov, do Dostoiévski. A primeira vez que tentei ler esse calhamaço foi lá em 2016, talvez. Lembro vagamente de passar as páginas desse livro no meu colo enquanto o ônibus me levava à faculdade. Era um inferno. Não entendia nada. Não por que eu era burro e Dostoiévski escrevia com profundidade demais, mas por que ele escrevia muito mal.

Acho que foi Hemingway um dos primeiros a expressar um óbvio paradoxo: Dostoiévski é um dos maiores escritores da história, mas é um péssimo escritor. O conteúdo de seus livros é denso, sua filosofia é angustiante pela humanidade transcendental, ele é o pai da psicologia etc. Mas escreve mal. Ponto.

É difícil apontar os motivos de alguém escrever mal. E eu digo isso tanto por ser especialista na arte de não escrever bem quanto por revisar muitos textos alheios e discutir constantemente sobre literatura. Às vezes, é uma questão de pressa. Outras, de falta de cadência. Outras, de falta de referência. Outras, de falta de limpeza. Outras, de excesso de cacoetes. Outras, de linguagem “desatualizada”. Outras, de não respeitar as palavras. Outras, de excesso de ruído. Outras, de não entender o que cada palavra pode significar em cada contexto. Outras, de uma falta de alma – ou seja, como se um computador pudesse ter escrito aquipo. Outras, de repetições desnecessárias. Dostoiévski tem algum desses erros. E são erros quase “básicos”; não é como se o autor estivesse almejando um estilo próprio e acabasse caindo em barroquismo. Só é ruim mesmo.

Agora, ao momento diário de leitura. Em Os Irmãos Karamázov, as primeiras vinte páginas são sofríveis. Parágrafos intermináveis e um monte de personagem aparecendo de todos os buracos não ajudam em nada o caso de defender a genialidade de Dostoiévski. Mas depois alivia. Quando interiorizei a sua linguagem porca, tudo ficou mais suportável. E, depois, agradável. Até que eu cheguei nas conversas com o stárietz Zossima. E o mistério desvelou-se sob os meus olhos e, pálido de espanto, virei Nelson Rodrigues.

Uma vez um entrevistador perguntou a Nelson o que ele recomendava de leitura aos novos escritores. Ele, sem hesitar, respondeu: “Dostoiévski”.

– Sim, e além de Dostoiévski?

– Dostoiévski.

Estou nessa fase. E se me perguntassem o que mais, além de Dostoiévski, bem, acho que a melhor resposta seja, ele mesmo, Nelson Rodrigues.

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