Blog do Resenhador

por Leopoldo Cavalcante
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Familiar


I.
O cheiro de queijo coalho tostado, derramando gorduras sobre a superfície aderente da frigideira, invade o quarto como um objeto de posse incerta, impregnando as formas amorfas estocadas no porão da memória; a fécula extraída da mandioca, triturada e molhada, com seus grãos moldados pela experiência das mãos calejadas da cearense (eram as mãos ou a massa que serviam o gosto de infância?); o passo caudaloso de Teresa adentrando o quarto destrancado, ofertando como a um filho esfomeado o produto de sua vida gastronômica aperfeiçoada pela escassez, professora de todo um continente e…
… e o desgosto de uma tapioca ressecada de padaria rompe os devaneios da mesa doze.

II.
Na casa de meus tios, onde me hospedei nos primeiros meses de minha nova vida, o cheiro de alho estava nos tupperwares, nos copos d’água, na tela do computador, nos comentários da GloboNews que meu tio assistia enquanto lia a Folha de S. Paulo, impregnada de um cheiro forte de alho. Quando subia a ladeira para o ponto de ônibus, era alho a me acompanhar nas minhas roupas lavadas.

III.
Nos arredores da Sé, onde caminhei a esmo nos primeiros dois anos, falava minha língua materna com os atendentes de lanchonetes e ganhava mililitros extras de cachaça por conhecer – de vista – as casas de pescadores perto da Washington Soares. O fogo da língua universal da cachaça subia pelo esôfago em palavras de um companheirismo irreal, construindo pontes sobre o vão da experiência e da cultura entre duas pessoas que só têm em comum o fardo de terem compartilhado o sol batendo nos mesmos pontos longitudinais e latitudinais, e nada mais.

IV.
A partilha do tesão por padarias entre os paulistas me atordoa. Em Fortaleza, padarias serviam o jantar de noites especiais, quando minha mãe me buscava na tentativa de treinar basquete. Minha perna latejava por uma hérnia não diagnosticada que era confundida com frescura e eu comia um filet com queijo e salada no pão sírio, enquanto minha mãe evitava as batatas fritas e repousava o recheio do sanduíche para fora do pão, com a delicadeza habitual de quem luta há décadas contra a balança. Era descanso. Jantar sem pressa, sentado sob ar-condicionado, numa padaria de bairro nobre, sob as noites de trinta graus.

V.
A panificação foi inventada na urbe romana. Os pães, diz a Wikipédia, eram exigidos para comemorações como festas e casamentos. A popularidade dos pães de forno só cresceu no decorrer dos séculos. Em Paris, a primeira padaria a céu aberto de produtos de panificação foi desenvolvida. Desde então, as padarias foram se estabelecendo em outros lugares, tornando-se, eventualmente, ponto de encontro, servindo para se reunir e socializar.

VI.
A banalidade de um verbete da Wikipédia não transparece o estranhamento de um estrangeiro em seu próprio país com os costumes de uma outra região. Se me metesse a explicar o mundo, falaria da influência da formação das cidades romanas e sua inserção das diferentes tribos conquistadas à cidadania romana. Se me metesse a explicar o mundo, diria que São Paulo, tal qual uma metrópole multicultural qualquer do ocidente, tem em suas padarias vestígios de influência social romana, datando de milênios atrás, quando Justiniano nem tinha abraçado o cristianismo e várias pessoas comercializavam livremente pelas ruas da cidade – desde que em latim. Se me metesse a explicar o mundo, falaria que Fortaleza está mais próxima da polis grega que, para manter a homogeneidade, agracia uns 5% da população com o status de cidadão, isolando e marginalizando os outros 95% e que, portanto, não haveria como padarias se instalarem com a mesma força em uma cidade calcada em desigualdade hereditária.

VII.
Mas se me metesse a explicar o mundo, não entenderia as covas discretas de um sorriso, após palavras fiadas pelo sarcasmo, de Marcela segurando, com a firmeza de quem está acostumada com o óleo respingando, seu bauru. Se me metesse a explicar o mundo, a mera visão de uma tapioca não traria de volta o passo caudaloso de Tetê e sua roupa branca cheirando à queijo coalho tostado e restos de frigideira. E não seria o gosto de manteiga desleixada e de queijo ralado e requentado de um freezer entregue em cinco minutos pela troca de dez a quinze palavras com um nordestino servindo paulistas e um pseudo-nordestino em um bairro nobre na rua com nome nobre de Ministro Godói que mexeriam com a memória afetiva de um indivíduo comendo uma tapioca. E não seria aquele gosto a me atravessar como um sopro escuro no porão da memória e a tumultuar as lembranças de uma vida marcada, como toda vida, de afetos e perdas, derrotas e alegrias, dores na perna e a nítida visão de minha mãe, que não é a de mais ninguém, escanceando com o prato o pão que seria estragado.