Blog do Resenhador

por Leopoldo Cavalcante
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Explicação para sair mais forte dos cásulos

Não é por acaso que uso a metáfora de casulos. Foi em À Procura do Romance o primeiro choque que ele me trouxe com essa imagem. É uma constante. Em vários momentos, o narrador ou as personagens voltam-se para si, como para casulos. E isso me lembra outra metáfora, tão pungente nessa Ocupação


“Você foi generoso como sempre, não quis acusar a minha presunção, você se lembra? Disse que eu devia tentar, devia procurar nos olhos dos outros algo além do meu reflexo, devia mergulhar nos olhos dos outros a ponto de me perder.”

@julian.fuks é o ourives de casulos. Sua prosa trabalha os detalhes da construção do ser individual – mesmo que ele se cobre o coletivo. A dor e o gozo de cada personagem libertam-se das amarras do silêncio.

Não é por acaso que uso a metáfora de casulos. Foi em À Procura do Romance o primeiro choque que ele me trouxe com essa imagem. É uma constante. Em vários momentos, o narrador ou as personagens voltam-se para si, como para casulos. E isso me lembra outra metáfora, tão pungente nessa Ocupação

Em seu ensaio sobre Exílio, Joseph Brodsky fala de indivíduos lançados a terra estrangeira em cápsulas de linguagem. Tudo o que eles [os exilados] têm são suas membranas linguísticas, decifrando o mundo alienígena do qual não fazem parte a partir de palavras que não dialogam completamente com a realidade. Como casulos, as cápsulas são mecanismos de defesa ao desconhecido, ao desconcertante, ao ofensivo.

Acontece que em Fuks os casulos racham – mesmo que não explicitamente. Não importa o quanto tentem se esconder, se proteger, fugir, a sua literatura busca diálogos. É assim com o sírio Najati, escritor de histórias do prédio ocupado. É assim com o pai de Sebastián. E é assim com o narrador.

O indivíduo enclausurado faz parte do coletivo exposto. A resistência do outro ganha voz nas inseguranças abissais. A Ocupação resiste à morte, ao abandono e ao aborto pela ternura entre as pessoas.

Pode o céu fechar, pode a luz acabar, pode a linguagem falhar, pode o governo nos queimar: continuaremos.