Blog do Resenhador

por Leopoldo Cavalcante
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Em “Controle”, Natalia Borges Polesso fala de uma geração de excluídos

Entre rock dos anos 80, estilo simples e inquietante, Natalia Borges expõe os dramas de uma gaúcha epiléptica descobrindo o potencial da vida.


Até a capa lembra New Order. Aquele álbum lá: Power, Corruption & Lies. Nem sei se precisa saber tanto sobre New Order pra sentir o impacto desse romance. Acho que não.

Controle é sobre a Maria Fernanda. Ela nasceu um dia depois de o Ian Curtis se matar, em 1980. Com doze anos ela bate a cabeça num acidente de bicicleta e tem seu primeiro ataque epiléptico. Daí, vai até os trinta anos sendo um peso morto na casa dos pais, isolada do mundo real, sem terminar o segundo grau, namorando à distância por MSN com um cara, pedindo desculpas por cair babando e revirando os olhos em lugares aleatórios.

Nessa vida, quem acompanha a Nanda são seus amigos Davi e Joana – o Alexandre virou pai e teve que dar um sumiço. Davi gosta de Madonna e a Joana transa com mulheres desde os trinta anos. A Fernanda sempre amou a Joana, mas era “socialmente instável” pra se confessar. Enfim.

A Natalia – autora do livro, não alguma personagem – tem um negócio meio rock n’ roll clássico na escrita. Ela transita com uma facilidade entre o banal e o mais alto, um bagulho meio Patti Smith. A condição humana tá ali, com suas limitações e seus desejos reprimidos, tudo ali sob controle, prestes a transbordar, pronta pra quebrar qualquer lógica e meter um solo de piano do Mike Garson. Um negócio meio rock n’ roll.

Se é bom? Bem, faz dois meses que eu não termino um livro. Esse aqui eu li ontem numa sentada. E isso parando no meio da leitura pra escutar os álbuns do New Order. E The Idiot, do Iggy Pop, último disco que Ian Curtis ouviu antes de se enforcar na cozinha da casa da mulher. É um som envolvente.

Ficha técnica:
Livro: Controle
Autor: Natalia Borges Polesso
Editora: Companhia das Letras
Ano de lançamento: 2019
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