Blog do Resenhador

por Leopoldo Cavalcante
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Daniel Arasse serve como óculos em “Nada se vê”

A obra é simples: seis quadros analisados pelo olho de um grande especialista na área de pintura renascentista. Pelo tema, tem tudo pra ser pedante que só, inacessível até. Mas Arasse o expõe como um passeio literário.


Quer saber um grande lançamento de 2019? Esse livro. Impressionante como um negócio bom desses demorou quase 19 anos pra chegar no Brasil. Enfim.


Faz um tempo que não leio nada de ficção. Pego um ou outro livro de filosofia, pensamento político, até teologia. Mas nada de ficção. O mais próximo de ficção é análise de obras de arte. E esse do Daniel Arasse é um prato cheio pra quem esteve um tempo de ressaca literária e pretendia voltar.


A obra é simples: seis quadros analisados pelo olho de um grande especialista na área de pintura renascentista. Pelo tema, tem tudo pra ser pedante que só, inacessível até. Mas Arasse o expõe como um passeio literário.


O primeiro ensaio vem numa forma de carta-dialogo sobre um quadro de Tintoretto. Ele está dialogando com uma Giulia, que eu não me dei ao trabalho de saber quem é, professora italiana de história da arte. Dialogando não. Brigando, quase. Ele tem um tom meio passivo-agressivo bem engraçado, até. Se eu fosse a Giulia, ficaria bem puto com a carta.


Todos os ensaios, na verdade, são meio que uma brincadeira. Arasse escreve de uma forma bem acessível, esbanjando uma erudição absurda sobre iconografia – mesmo ele não gostando dessa área – e geopolítica medieval. Por se prender quase exclusivamente ao renascimento, Arasse dá uma aula sobre história do pensamento cristão, mostrando as variações e as escolhas eclesiásticas a partir das Escrituras para cada representação pictórica.


No último ensaio, ele escreve sobre As Meninas, quadro do Velásquez. O começo é quase um pedido de desculpas por estar falando de um quadro tão batido desde Foucault, mas seu raciocínio é bem mais intrigante do que o do seu conterrâneo – sem nunca desmerecê-lo, claro. Arasse chega a afirmar que Velásquez é um precursor de Kant. Sim, de Kant. Mas sem nunca dar certeza sobre essa conclusão. É mais uma inquietação filosófica de uma interpretação possível. Até porque ele mesmo deixa claro não ser especialista em filosofia alguma, só um diletante.


Acho que toda literatura boa tem um quê de amadorismo. Se as histórias se baseiam em uma investigação amadora antes de uma resposta, a chance de dar certo é maior. Ao menos para mim.

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