Blog do Resenhador

por Leopoldo Cavalcante
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Arthur Nestrovski ensinando como tudo tem a ver


Virei o ano lendo sobre música. Era uma coletânea do Miguel Wisnik sobre música popular brasileira e literatura que abriu meus olhos para muitos detalhes que me escapavam.

Ler sobre música é um grande paradoxo. Ao mesmo tempo em que se aprende algo, não se deixa de apreciar menos, apenas melhor. E, mesmo assim, falta tanto para chegar na música em si, que apenas ela por ela – sem respaldo das palavras – pode bastar-se.

Portanto, ler sobre música é menos gratificante do que a música em si, lógico, mas ajuda a apurar o ouvido por meio dos olhos. É como gastronomia, em certo sentido. Uma descrição bonita do prato amplifica o prazer pelo prato, mas não é suficiente para matar a fome.

Todo esse lengalenga é para apontar o não-lugar que ocupa um livro sobre música e literatura como o do @arthur_nestrovski.

Não só o não-lugar NA música como também NA literatura.

Na estética, em geral, acaba-se apelando para ideias que se aproximam da ideia em si. Nem tão lá, nem tão cá. Quando falo de arte, gosto de uma não-explicação de Walter Benjamin. Para ele, a beleza está no objeto velado enquanto coberto pelo véu. Exponha completamente esse objeto e não terá beleza, apenas um conceito em sua bruteza. Deixa só o véu e não terá nada além de um véu.

Muitas vezes, ao tratar de arte, os críticos precisam ocupar o não-lugar de explicar o que está por baixo do véu, sem nunca descobrir o objeto completamente. Nesse jogo, evita-se que haja apenas razão e invasão para alcançar arte sobre arte. Aí repousa a dificuldade da boa crítica.

Termino sem ter falado nada com nada, talvez. O ponto principal é o deleite pessoal que tenho ao ler a prosa límpida e pulsante, intelectual e humana, de alguém como Nestrovski, entre o professor e o músico, entre o erudito e o popular – não só no sentido musical, claro.