Blog do Resenhador

por Leopoldo Cavalcante
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Aforismos de sebo


Tenho deleite em desvendar papéis e textos esquecidos. Por acaso, encontrei alguns manuscritos em alemão assinados por um tal de L. Zweiermann bem guardados dentro de um livro de Jorge Luis Borges que comprei há meses em um sebo parisiense.

Provavelmente o paradeiro dos escritos seja a biblioteca de algum sério acadêmico, pois a caligrafia na página inicial era formosa e, pelos meus estudos de grafologia, demonstrava segurança, independência e um temor exagerado pela finitude do corpo.

Se comprei tal preciosidade olvidada em Borges pela bagatela de três euros, posso supor que o acadêmico faleceu e sua viúva – ou viúvo – doou sua biblioteca.

A quem interessar, traduzi alguns aforismos (os que consegui decifrar) para o nosso português. Percebi alguma sabedoria neles, mas, admito, trago-os principalmente por ser diletante no ofício de tradução. Também devo admitir que em alguns não captei por completo o significado – acho que não são destinados a mim -, noutros não vi absolutamente nada de novo.

Coloquei numeração e pontos para facilitar a vida do leitor. No manuscrito, os textos não passam de garranchos esparsos pela página. Portanto, posso ter omitido alguma passagem ou cortado partes fundamentais de um ou outro aforismo. Peço perdão desde já.

Não há muito mais escritos do que esses que lhes trago agora, mas tentarei decifrá-los com o tempo. Aproveitem.

I. Poesia

I. Freud certa vez reclamou que nenhuma de suas descobertas era novidade aos poetas. Onde ele chegava na investigação da psique já encontrava bandeiras fincadas em versos.

II. A poesia é uma bomba. Com apenas duas linhas – e por causa de duas linhas – é possível devastar.

III. A força poética reside no presumido.

IV. Filosofia é dilacerar a poesia e revelar à luz do sol suas verdades fotofóbicas.

V. Poesia é entender o real além do entendimento.

VI. Cristo preso à cruz clamando ao Pai que lhe desamparou; poesia é a resposta de Deus ao seu Filho crucificado.

VII. Ao proclamar ἰδοὺ ὁ ἄνθρωπος (Eis o Homem), Pôncio Pilatos reservou seu lugar no panteão dos grandes poetas.

II. Beleza

VIII. Entre a palavra e o objeto, pousa um manto que tudo esconde, movimentando-se pela brisa das palavras. Retire o manto, misture a palavra ao seu significado puro e matarás a beleza.

IX. Entre os deuses e os mortais, um véu está suspendido, e seu nome é maia. A verdade era de que o mundo dos deuses era o real, enquanto o suposto mundo habitado pelos homens era uma ilusão, e maia, o véu da ilusão, era a mágica pela qual os deuses persuadiam homens e mulheres de que seu mundo ilusório era o real. Sem véu, não há beleza.

X. Sem sermos persuadidos pela ilusão de que o mundo no qual vivemos é o real, não haveria beleza. O belo reside na tangente entre os deuses e os homens, quando sua força empurra maia para mais perto da real realidade.

XI. De cada palavra dita, captamos significados insuficientes. Quando dizem “Eu te amo”, presumimos o Amor. Mesmo se quem afirma o amor está a mentir, a beleza prevalece sobre a mentira. A diferença entre ilusão e verdade reside somente na sua função.

XII. A beleza ilusória é tão verdadeira quanto a mentira sincera.

XIII. A devassidão completa; a feiura da feiura; Narcísio iracundo e ensanguentado frente ao espelho; eis o avesso do avesso da beleza.

XIV. O αποκάλυψις (revelação) da beleza será pela revolta egofânica do homem. A segunda Queda.

XV. Agostinho de Hipona decretou a seus ouvintes: ‘Mais vale que te espantes de ver o mundo chegar a idade tão avançada’. Frente à queda estética de nosso tempo, surpreendo-me pela beleza ter sobrevivido até aqui. Requiescat in pace.

III. Amor

XVI. O melhor amor é o que guarda em si o germe do hábito.

XVII. O amor é a superação do erotismo.

XVIII. A forma mais antiga de preservar o amor é o adultério.

XIX. Antes de os trinta anos de idade, ninguém sabe amar.

XX. Solidão é amar o amor.

XXI. Amor é o inferno consentido entre duas – ou mais – pessoas.

XXII. O amor de Deus só é completo pelo seu silêncio.

 

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