Blog do Resenhador

por Leopoldo Cavalcante
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A face de Cristo em um quadro de Jan van Dornicke. Parte I.


Nessa série em três partes, explorarei aspectos da obra Cristo carregando a cruz, a crucificação e o sepultamento, do pintor Jan van Dornicke. A parte de hoje será sobre considerações gerais. Amanhã, uma descrição do quadro. Sexta-feira terminamos com a exegese da obra.

Uma breve ressalva: as considerações sobre esse quadro não tem valor teológico algum. Textos bíblicos e interpretações teológicas têm impacto secundário na análise.

Sem mais delongas, ao texto.

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I. Introitus

Qui suis-je?

André Breton

Quem é Deus? Na ótica teísta predominante na cosmovisão da maior parte da população que passou pela Terra, esta pergunta blasfema contra a ordem inicial das coisas. Deus só é: tanto em solidão quanto em essência. O que vale perguntar é tão somente: pelo que se apresenta Deus? Como a pergunta tende a infinitas respostas, ficaremos no cristianismo, religião predominante às análises aqui feitas.

Aos fiéis letrados, Deus conversa pelas Escrituras. Aos melomanos de todas as épocas, o intangível dos sons perpassava o Senhor por cada um de nós. Aos analfabetos, está Deus nas pinturas de parede, nos quadros, nos dípticos e trípticos. Deus, pelo que ouviram, se expressa pelas Escrituras, terreno inacessível a eles, mas não aos artistas, convocados pelo clero para luzir os Textos.

No século VI, o Papa Gregório, o Grande, declarou: “Uma coisa é adorar um quadro, outra é aprender em profundidade, por meio dos quadros, uma história venerável. Pois aquilo que a escrita torna presente para o leitor, as pinturas tornam presentes para os iletrados, para aqueles que só percebem visualmente, porque nas imagens os ignorantes veem história que devem seguir, e aqueles que não conhecem o alfabeto descobrem que podem, de certa maneira, ler. Portanto, especialmente para o povo comum, as pinturas são o equivalente da leitura”.

No tríptico de Jan van Dornicke, sem data e parte do acervo do MASP desde 2004, chamado Cristo carregando a cruz, a crucificação e o sepultamento vemos a Paixão, momentos antes, durante e após a crucificação de Cristo.

Retratar o sofrimento de Cristo na cruz foi lugar comum na arte, encarregada quase majoritariamente de levar os fiéis ao êxtase imagético, ao aprendizado, sendo este o prelúdio do transcendental. No claustro da Igreja, perscrutava-se diretamente para o que estava escrito. À Igreja não se podia dar o capricho de Flaubert, que era invariavelmente contra ilustrações de suas histórias. A palavra é sagrada, remete a algo quase amorfo, precisamente impreciso. Ilustrar seria viciar o olhar. Mas o vício dos outros é pecado, o da Igreja, apoteose.

Deus fez-se homem e principalmente símbolo. A linguagem, como explorada pelos semióticos, é antes de tudo símbolo. Um conjunto deles forma uma gramática que, quando vista pelo leitor – na sua acepção mais abrangente -, é decifrada, decodificada. Os leitores e as gramáticas, todavia, são a ração diária favorita do tempo, que a tudo devora.

Portanto, apreender todos os significados de uma obra de arte antiga requer um brutal esforço de reconstrução semântica por parte dos historiadores. Como esse ensaio não se propõe a análises tecnicamente aprofundadas, seguiremos às descrições pitadas de reconhecíveis atributos históricos. Mutatis mutandis (perdão pelo latim), o que se souber da hermética gramática, será aplicado à obra.